Trabalhos Variados


A Informática, uma janela aberta para os cegos

A musica e a notação musical através dos tempos

O Braille e a musicografia

O sistema Braille

Testemunho sobre o Braille na minha realização pessoal

Garras do Destino

 


A INFORMÁTICA, UMA JANELA ABERTA PARA OS CEGOS

  

As novas tecnologias são símbolo de enorme desenvolvimento em todos os quadrantes. Quando há poucas décadas nasceu a Informática, os cépticos não vislumbraram o seu largo alcance. Mas ela foi-se impondo de tal forma que hoje é impossível ignorá-la. No que diz respeito à acessibilidade para os deficientes, volvidos alguns anos, começaram a delinear-se e a abrir-se amplos horizontes em muitas vertentes. Uma delas contemplou os invisuais.

            Em relação à Acessibilidade e Tecnologias de Apoio, antes da implementação dos meios informáticos, podemos citar a invenção, em 1808, por um italiano da primeira máquina de escrever para ajudar as pessoas cegas a escreverem de forma legível. Alexander Graham Bell, em 1876, inventou o telefone porque a sua mãe e a sua mulher eram surdas. O controlo remoto foi inventado para as pessoas com limitações de mobilidade. Em 1935, foi criado o primeiro aparelho para reproduzir livros falados. Em 1936, foi a vez do primeiro sintetizador de voz. Em 1975, Kurzweil inventou o primeiro digitalizador, scanner, que hoje usamos no escritório, para possibilitar a leitura de livros por pessoas cegas.

            Há imenso trabalho investido, com progressos já bem visíveis e prosseguem diversas e afanosas investigações, visando a concretização dos meios para que os cegos possam digitalizar, escrever, ler, tratar, imprimir, converter, exportar e importar ficheiros, compor música, orquestrar, fazer alterações, isto é: ter a possibilidade de manejar e rentabilizar os softwares disponíveis e usufruir das ferramentas facilitadoras das suas dificuldades.    

            Este trabalho está a ser levado a cabo por diversas entidades, cada qual com as suas motivações, tais como, associações de deficientes, governos, produtores de material especializado, ajudas técnicas, grandes companhias de softwares...

            Significa que, em todos os tempos, esteve sempre presente a solidariedade para com os mais desfavorecidos.

            Especificamente, agora, referir-me-ei a mais algumas invenções e a alguns aspectos marcantes que a Informática proporcionou e proporciona aos utentes cegos.

            Louis Braille, que cegou aos três anos, por ter espetado uma sovela num dos olhos e que, entretanto, lhe afectou o outro, perdendo totalmente a visão, internado numa instituição parisiense, sentiu necessidade de comunicar com os demais seres humanos e de ter acesso à cultura. Assim, em 1825, inventa um sistema, que mais tarde tomou o seu nome, constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 símbolos. Este processo de leitura e de escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na matemática, física, música, informática, etc.

            Actualmente, uma das funcionalidades de alguns softwares, como o Braille Music Editor, é a transformação do teclado do computador em teclado de máquina Braille, usando as letras f, d, s (pontos 1, 2, 3) e j, k, l (pontos 4, 5, 6, respectivamente). A barra de espaços assume a sua função normal.

            Mais tarde, Ballu, também francês e ainda através de pontos, inventa um sistema que reproduz as letras de imprensa. É uma forma de escrever directamente para quem vê, mas trata-se de uma escrita excessivamente morosa, pela qual, aliás, fiz os exames da 4.a classe e admissão ao liceu.

            Seguidamente, um inglês chamado Moon, adoptou a mesma estratégia para a impressão informatizada, criando o código Moon, que, ainda hoje, é possível utilizar em algumas impressoras Braille.

            Nas décadas de 50-60 houve o bom senso de ministrar aos cegos o curso de dactilografia, preparando-os para apresentar os seus trabalhos dactilografados.

            Deram-se, de facto, passos incontestáveis para a sua integração, comunicabilidade e independência. A Informática, porém, ao aglutinar e desenvolver os eventos já citados, tornou-se numa ferramenta que, cada vez mais, os cegos têm presente, porque vem preencher incontáveis lacunas.

            No final da década de 80 surge o primeiro leitor de ecrã e um sintetizador de voz, para o sistema operativo MS-DOS, que possibilitou, essencialmente, a utilização dos softwares de processamento de texto, tais como Word Perfect e Word Star, de folhas de cálculo, como o Lotus 1-2-3, de gestão de bases de dados, como o DBase, etc.

            No auge da utilização do Windows 95, apareceram vários leitores de ecrã, que, numas línguas mais cedo, noutras mais tarde, puderam ser ouvidos através das colunas do computador, dispensando assim um sintetizador específico, e começando a possibilitar o uso do mesmo hardware que a generalidade das pessoas...

            Em Portugal, nesta época, apenas dois softwares deste tipo existiam e havia ainda a necessidade da utilização de um sintetizador externo...

            A década de 90 é a era da competitividade, aparecendo em Portugal diversos leitores e alguns com muita qualidade, como, por exemplo, o Jaws. Tornou-se possível navegar na Internet e, mercê da criação constante de novos scripts, é mais fácil trabalhar com quase todos os softwares.

            Um dos grandes obstáculos que se levanta aos invisuais é a impossibilidade de usar o rato, muito embora já haja algumas novidades e prossigam grandes investigações, principalmente no capítulo da interactividade do rato com o utilizador, possibilitando sentir as imagens e as texturas...

            Não podendo utilizar o rato, para cada software, é necessário recorrer constantemente aos menus, ou decorar inúmeros comandos por teclado, que quando executados efectuam a mesma acção que as opções dos menus ou barras de ferramentas.

            Apesar de algumas pessoas terem pensado que a utilização da voz como meio de leitura iria tornar o Braille obsoleto, tal não aconteceu, sendo actualmente possível imprimir-se directamente do PC para Braille, usar um terminal Braille, mais conhecido por linha Braille, que converte o texto presente no ecrã, e em alguns casos, até gráficos, em caracteres Braille; pode exportar-se um texto normal e recebê-lo convertido em Braille, ou vice-versa, etc.   

            Ainda recentemente, concretamente no ano passado, passou também a estar acessível a esta camada da população o mercado dos PDA e dos telemóveis inteligentes, por adaptação de leitores de ecrã a esses sistemas operativos, dando-nos a certeza de que a evolução não será tão prejudicial aos deficientes como alguns dentre eles julgam, sendo apenas necessário esperar um curto período de tempo para que apareçam as ferramentas que os irão tornar acessíveis...

            Cada vez há mais cegos a utilizar a Informática e não dão por mal empregado o tempo e o dinheiro investido, embora o factor preço seja um dos grandes obstáculos à sua massificação.

 

            Março de 2004

 

                        José Fernandes da Silva

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A música e a notação musical através dos tempos

(Elaborado para expor aos alunos)

 

 

O que é a Música?

            Diferentes definições e dos mais variados quadrantes tentam dar-lhe resposta: "É a arte de exprimir sentimentos ou impressões por meio de sons. É a linguagem universal. É a poesia da alma. É a arte dos sons."

Platão escreveu que "A Música dá alma ao universo, asas ao pensamento, impulso à imaginação, encanto à tristeza, alegria e vida a todas as coisas."

Santo Agostinho definiu-a como "A arte do belo movimento."

António Aleixo poetou-a nesta quadra: "Tem a Música o poder / tornar o homem feliz / ninguém consegue dizer / tanto quanto ela nos diz!"

Mais recentemente, Leonardo Coimbra, referiu que "A primeira educação deve ser artística e as próprias virtudes morais só podem ser dadas à criança pela harmonia estética."

Já mais voltado para a origem da Música, William Man afirmou: "A Música, bem cotada entre todas as artes sofisticadas da comunicação humana, é considerada a mais antiga, a mais primitiva nos seus propósitos. Desenvolveu-se a partir dos principais ritmos e vibrações do nosso planeta, dos sons dos ventos e da água, do ar e do fogo."

Na verdade, os historiadores acordam que o surgimento dos sons se fundamentam na necessidade de comunicar. O homem primitivo imitou os sons da sua experiência com a natureza: o quebrar dos ramos, o sussurrar do vento, o marulhar da água nos regatos e nas fontes, o canto das aves, etc., que terão sido os seus primeiros instrumentos musicais.

As lendas mais remotas atribuem à Música origem divina. Dizia-se que a arte musical era um prémio atribuído pela divindade ao homem.

Há discrepância entre os historiadores sobre o que será mais antiga: a Música vocal ou instrumental. A primeira hipótese reúne mais consenso.

Wallaschek afirma que a origem da música se encontra na tendência inata no homem. Nietzsche, Spencer e Darwin filiam em determinados impulsos psíquicos a primeira manifestação musical. Combarieu defende que a origem da Música está presente na magia. O professor berlinense Karl Stumpf sustenta a hipótese dos sinais, gritos e cantos de guerra entre as tribos primitivas. O economista Karl Bücher deduz que o esforço físico tivesse sido a origem do canto e da Música.

Certezas não existem, mas podemos socorrer-nos dos elementos de estudos que nos dão as primeiras tentativas musicais da criança e a música dos povos selvagens, acreditadas como a primeira manifestação musical do homem.

Luís de Freitas Branco, acerca da divergência do que foi acima exposto, explana: "Segundo todas as probabilidades, a primeira manifestação musical do homem foi o canto. Todas as considerações históricas, psicológicas e fisiológicas nos levam a essa conclusão. Qual foi a causa dessa manifestação? A tendência rítmica do homem? Os impulsos psíquicos? O esforço e o trabalho? Na impossibilidade de optar por uma delas, não rejeitemos nenhuma destas hipóteses. Admitamos, pois, que o homem cantou primeiro: pela tendência rítmica, por impulso psíquico, no trabalho, no recreio, na oração ou na guerra, mas não admitamos nunca que a primeira música humana não fosse vocal."

Voltemo-nos, agora, para a escrita da música e da sua evolução.

É muito longo e pouco documentado o historial da escrita musical. A Música, como tantas artes, foi-se transmitindo de geração em geração por via oral, levada a outros povos pelas correntes migratórias. Como na escrita de textos, usou-se todo o tipo de simbologia.

            Por exemplo, os antigos indus da época dos Vedas (3.500 a.C.) empregavam a escrita musical por algarismos ou letras do alfabeto sânscrito. Os chineses teriam sido os iniciadores da notação musical por meio de letras e os primeiros a filiar a escala na relação da quinta perfeita, 3 tons e meio, (2637 anos a.C.).

No Império Romano, na escrita musical utilizavam as primeiras 15 letras do seu alfabeto.

Mesmo a sério, a notação musical começou por surgir, sobretudo com a função de auxiliar a memória de quem cantava e apenas mais tarde se tornou cada vez mais precisa. Principalmente, eram colocadas pequenas marcas junto das palavras, indicando o tipo de movimento sonoro a cantar. Essas marcas chamavam-se neumas, ou sinais, cuja decifração era difícil, e dividiam-se em dois grupos: punctum e virga. O primeiro, quando o movimento sonoro era ascendente e o segundo, quando o movimento musical era descendente. Neste sistema, o cantor tinha de conhecer antecipadamente as músicas que iria interpretar.

Os documentos mais antigos que se conservam, contendo neumas, datam do século oitavo. Apesar de toda a sua dificuldade e imperfeição os neumas tinham sobre a escrita musical por algarismos ou letras, a vantagem de seguir com a disposição dos sinais a altura dos sons. Este é, porém, o início da notação moderna.

Para a emancipação da música, na época medieval, a influência do cristianismo foi decisiva. Claro que a cultura musical dos gregos, dos romanos e dos demais povos antigos foi de grande importância para a Humanidade, mas tinham como pano de fundo a mitologia, os seus costumes e sentiam plasticamente. Todavia, o cristianismo, pondo acima de tudo a alma, condenando o materialismo, trouxe para a história um elemento que favoreceu o desenvolvimento da Música: a espiritualidade.

Santo Ambrósio, bispo de Milão (374-397) tornou-se o primeiro reformador importante da música cristã. Manteve quatro dos modos gregos, que mais tarde se chamaram modos autênticos e determinou os cantos que se deveriam fazer ouvir nas diferentes festas do ano litúrgico.

Como no século VI surgissem queixas sobre a falta de unidade do cantochão nos diferentes países, o papa S. Gregório (540-604) retirou do culto os cantos que julgou impróprios, restaurou outros que se tinham modificado, compôs alguns novos e adotou, além dos quatro modos autênticos mais quatro denominados plagais. Todos os cantos da liturgia cristã foram reunidos na colectânea denominada "Antifonário", pela ordem das festas do ano, sendo preso o volume a uma cadeia de ouro, sobre o altar de S. Pedro, no Vaticano.

O hino da festa de S. João Baptista foi composto de maneira que cada verso  começasse num grau mais alto do que o precedente. Ao substituir a letra que indicava o som pela primeira sílaba de cada verso, passou a atribuir-se aos sons o nome que hoje têm.Por exemplo, a nota si, foi obtida juntando as duas primeiras letras de Sancte Ioannes.

Esta invenção, assim como o uso de um conjunto de quatro linhas a partir do qual surgiu o sistema de notação, diz-se que se deve a Guido d'Arezzo, que viveu nos finais do século X até metade do XI, grande teórico da Idade Média. Este sistema de linhas funcionava da seguinte forma: em cima era traçada uma linha amarela, representando a nota dó e em baixo uma outra a vermelho, que representava a nota fá. Estas eram separadas por uma linha sem cor, representando a nota lá. O som era inscrito nestas linhas por um pequeno quadrado, que indicava a sua altura precisa.

Passaram, mais tarde, a traçar-se cinco linhas, tendo uma delas uma referência que consistia numa letra ou clave, como nós actualmente lhe chamamos.

            A partir do século XI o uso da pauta tornou-se habitual.

 

            Agosto de 2000

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O BRAILLE E A MUSICOGRAFIA

 

  Origens, Evolução e Actualidade

  

(Trabalho apresentado no

Seminário: "Acessibilidades - o que temos e o que queremos",

Que teve lugar no dia 20 de Outubro de 2003

no Auditório do Orfeão da Covilhã)

 

 

 INTRODUÇÃO

 

 

            Ao ser-me dirigido o honroso convite para dissertar um pouco sobre esta temática, interroguei-me acerca da forma como haveria de elaborar o trabalho. Desde logo, tive em mente que a Música, ao longo dos tempos, tem sido o ganha-pão de muita gente e também de inúmeros cegos, que a utilizaram e utilizam, cultivando-a, amando-a, estudando-a e trabalhando-a como bons profissionais e dela retirando os justos dividendos, quer leccionando, quer como executantes, quer mesmo como compositores.

Não foram apenas os cegos que precisaram de uma musicografia específica, porque desde os primórdios do tempo o homem se viu confrontado com a necessidade de criar regras de escrita, para que, com efeito, a Música fosse uma linguagem universal e interpretada de igual modo em qualquer lugar do Mundo.

Por isso, depois de ter reflectido maduramente, decidi dar corpo a este texto, focando três aspectos, que julgo de cabal importância e elucidativos:

a) A música e a notação musical através dos tempos;

b) O Sistema Braille e a Musicografia - nascimento, evolução e actualidade;

c) A informática e o aperfeiçoamento de softwares de música manejáveis pelos cegos.

Esta pequena exposição é baseada na minha experiência profissional; na História da Música; numa bem elaborada dissertação de mestrado em Ciências da Educação, apresentada à Universidade Internacional de Lisboa, intitulada "Musicografia Braille - Instrumento de Inclusão", pela Drª Dolores Tomé, professora da cadeira de Musicografia Braille na Universidade de Brasília; a consulta de documentos actualizados e disponibilizados pela ONCE, assim como a primeira Edição do "Novo Manual Internacional de Musicografia Braille", vindo a lume em 1998 e publicado por esta Instituição; algum traquejo com softwares específicos e a leitura de bibliografia adequada.

 

 

                                                                             

a) A MÚSICA E A NOTAÇÃO MUSICAL ATRAVÉS DOS TEMPOS

 

 

 

O que é a Música?

            Diferentes definições e dos mais variados quadrantes tentam dar-lhe resposta:

"É a arte de exprimir sentimentos ou impressões por meio de sons. É a linguagem universal. É a poesia da alma. É a arte dos sons."

Falemos, então, um pouco sobre a escrita da música e da sua evolução.

É muito longo e pouco documentado o historial da escrita musical. Como na escrita de textos, usou-se todo o tipo de simbologia.

            Por exemplo, os antigos indus da época dos Vedas (3.500 a.C.) empregavam a escrita musical por algarismos ou letras do alfabeto sânscrito. Os chineses teriam sido os iniciadores da notação musical por meio de letras e os primeiros a filiar a escala na relação da quinta perfeita (2637 anos a.C.). No Império Romano, na escrita musical utilizavam as primeiras 15 letras do seu alfabeto.

A notação musical tinha a função de auxiliar a memória de quem cantava. Por isso, o cantor era obrigado a conhecer, antecipadamente, as músicas que interpretava. Principalmente, eram colocadas pequenas marcas junto das palavras, indicando o tipo de movimento sonoro a cantar. Estas marcas chamavam-se neumas, ou sinais, cuja decifração era extremamente difícil.

Os documentos mais antigos que se conservam, contendo neumas, datam do século VIII. Apesar de toda a sua dificuldade e imperfeição os neumas tinham sobre a escrita musical por algarismos ou letras a vantagem de seguir com a disposição dos sinais a altura dos sons. Trata-se do início da notação moderna.

Para a emancipação da música, na época medieval, a influência do cristianismo foi decisiva. O hino da festa de S. João Baptista foi composto de maneira que cada verso  começasse num grau mais alto do que o precedente. Ao substituir a letra que indicava o som pela primeira sílaba de cada verso, passou a atribuir-se aos sons o nome que hoje têm. Por exemplo, a nota si, foi obtida juntando as duas primeiras letras de Sancte Ioannes.

Esta invenção, assim como o uso de um conjunto de quatro linhas a partir do qual surgiu o sistema de notação, diz-se que se deve a Guido d'Arezzo, que viveu nos finais do século X até metade do XI, grande teórico da Idade Média. Este sistema de linhas funcionava da seguinte forma: em cima era traçada uma linha amarela, representando a nota dó e em baixo uma outra a vermelho, que representava a nota fá. Estas eram separadas por uma linha sem cor, representando a nota lá. O som era inscrito nestas linhas por um pequeno quadrado, que indicava a sua altura precisa.

Passaram, mais tarde, a traçar-se cinco linhas, tendo uma delas uma referência que consistia numa letra ou clave, como nós actualmente lhe chamamos.

A partir do século XI o uso da pauta tornou-se habitual.

 

 

 

b) O SISTEMA BRAILLE E A MUSICOGRAFIA -NASCIMENTO, EVOLUÇÃO E ACTUALIDADE

 

 

 

O que é o Sistema Braille e a respectiva Musicografia? Quais as origens, desenvolvimento e estado actual?

Teríamos aqui matéria para proceder a uma ampla dissertação. Vou, porém, abordar o assunto com alguma sintetização.

Desde que o homem existe sobre o nosso Planeta sentiu necessidade de se comunicar através de diversificados meios. Um deles foi a escrita. As muitas formas de escrever foram evoluindo positivamente, à medida que a Humanidade vencia os obstáculos e se aperfeiçoava em todas as vertentes. Também assim sucedeu com a escrita. E a leitura surge como consequência imediata, atendendo a que é necessário interpretar os escritos.

Até quase ao fim da Idade Moderna desconhece-se que alguém haja pensado na escrita e leitura para os cegos.

Chega-nos a primeira informação em 1784, quando Valentin Haüy, um homem culto e de coração nobre, funda em Paris uma escola para instruir os cegos e prepará-los para a vida. Defensor de que tudo depende dos sentidos, adapta o alfabeto vulgar, traçado em relevo, para que as letras fossem perceptíveis pelos dedos dos destinatários.

Pela mesma altura, um capitão de artilharia, Charles Barbier de la Serre, debruça-se sobre um código através de pontos, que podia ser tacteado e era usado para tornar secretas as mensagens militares e diplomáticas.

Nascido a 4 de Janeiro de 1809, oriundo de uma humilde família, Louis Braille teve o seu berço na aldeia de Coupvray, perto de Paris. O pai era correeiro e um dia, apenas com três anos, o filho, quando brincava com uma sovela, feriu-se num dos olhos, propagando-se a infecção ao outro, vindo a perder a visão totalmente.

Em 1819 ingressa na instituição de Valentin Haüy e conhece o código de Barbier. De imediato, inteligente e cheio de força de vontade, começa a sua investigação, a fim de ultrapassar as inúmeras dificuldades que o impediam de pôr-se em pé de igualdade com os demais cidadãos, tendo também em mente ofertar aos congéneres da mesma sorte um Sistema capaz de abrir-lhes as janelas para o inesgotável mundo da cultura.

Pensa-se que Louis Braille inventa o Sistema (que mais tarde tomou o seu Nome) em 1825. Contudo, apenas quatro anos depois, dá a lume a primeira edição do trabalho, intitulado "PROCESSO PARA ESCREVER AS PALAVRAS, A MÚSICA E O CANTOCHÃO, POR MEIO DE PONTOS, PARA USO DOS CEGOS E DISPOSTOS PARA ELES". Deu-lhe a forma definitiva em 1837, quando saiu a segunda edição.

O alfabeto Braille é constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 sinais.

Este processo de leitura e escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na matemática, física, música, etc.

O alfabeto tem-se mantido praticamente invariável até hoje, mas tudo está sujeito a mudanças e a melhoramentos e, por essa razão, há quem pesquise a utilização de oito pontos.

 

Como a escrita das palavras, também a Música evoluiu ao longo das gerações. Os cegos, desde muito cedo, têm-na utilizado como ganha-pão e lazer. Mas como decifrar os caracteres da música a tinta?

Não escapou esta delicada situação à perspicácia de Louis Braille, que também cultivou e interpretou a música. Apercebendo-se de que urgia criar uma notação musical para os cegos, persistente e ousado, lançou mãos à obra.

Assim, em 1829, baseado no seu sistema, realizou a primeira Musicografia, integrada na obra já citada e publicada nesse ano. Sugeria, junto ao alfabeto, um sistema de caracteres musicais, baseado nos seis pontos.

Ao longo da sua curta vida, Braille foi alterando completamente o código musicográfico, desenvolvendo a notação básica do código em uso presentemente.

Com os 63 símbolos é possível obter a representação de toda a notação musical a tinta. São as letras que funcionam como símbolos musicais, precedidas de prefixos específicos.

Assim, podemos indicar as claves, os compassos, os andamentos, a dinâmica, as oitavas, os intervalos, os baixos cifrados, as notas, os silêncios, os acidentes, as alterações, a harmonização, a forma de escrita para diferentes instrumentos e vozes, etc., etc....

            Por toda a parte foram surgindo diversos códigos musicográficos para uso dos cegos, tendo em conta, essencialmente, a escrita a tinta, que dificultava a sua leitura, impossibilitando também poderem ser escritos pelos usuários.

Em 1834, ainda antes do Sistema Braille ser aceite, oficialmente, pela França, o autor optimizou a notação básica do código musical.

Rapidamente este código alcançou grande êxito em França, mas no estrangeiro apenas foi conhecido em 1871, data em que o Dr. Armitage, de Londres, publica a obra "Uma chave para o Alfabeto e a Notação Musical Braille".

Oito anos depois, na Alemanha, surge outro guia e, em 1885, um novo, em Paris. Os três compêndios eram divergentes, tendo-se constituído uma comissão internacional, incorporada pela Inglaterra, Dinamarca, França e Alemanha, com a finalidade da unificação dos conteúdos. Em 1888, esta comissão, reunida em Colónia, acordou nas decisões tomadas, sendo os resultados desse Congresso divulgados nos países respectivos, ficando a ser conhecidos como a "Chave de Colónia".

Foi-se divulgando por toda a parte a Musicografia Braille, pois, cada vez mais, os cegos se valorizavam e empenhavam na melhoria dos meios postos ao seu serviço. Por assim dizer, em cada país e mesmo dentro dele, os usuários foram inventando e usando símbolos consoante as necessidades. Urgia pôr cobro a esta anarquia. George L. Raverat, secretário estrangeiro da American Braille Press, de Paris, tomou a seu cargo esta delicada missão, efectuando várias viagens entre a Europa e os Estados Unidos, até conseguir a realização de um congresso, que teve lugar em Paris a 22 de Abril de 1929, o "Congresso Internacional de Especialistas em Notação Musical Braille", com o patrocínio da União Braille Norte-Americana. Aí se adoptaram acordos importantes, que conduziram ao consenso da unificação da escrita musical dos cegos a nível mundial.

Com a participação de representantes de 29 países, sob a égide da Unesco, Conselho Mundial Braille e Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, reuniu-se em Paris, de 22 a 29 de Julho de 1954, o "Congresso Internacional sobre a Notação Musicográfica Braille", a fim de concretizar os esforços desenvolvidos em diversos países, no sentido de aproximar cada vez mais a Musicografia Braille à escrita musical a tinta.

O Subcomité para a Notação Musical no Sistema Braille, dependente do Comité de Cultura da União Mundial dos Cegos, foi criado no início da década de 80 e reuniu pela primeira vez em Moscovo, em 1982.          Desde essa data que o Subcomité se tem empenhado para que não haja desvios aos acordos estabelecidos e pugna para que prevaleça o consenso em todo o mundo.

                       Até chegar-se à publicação do derradeiro manual, saído, originalmente, em 1996, intitulado "Novo Manual Internacional de Musicografia Braille", editado há cinco anos pela ONCE e de que se espera, algum dia, seja contemplada a sua publicação em Portugal (onde nunca nada foi editado sobre a matéria e a que se tem dado pouca ou nenhuma importância), houve mais um longo e espinhoso itinerário a percorrer.

            Esta obra, de largo alcance para uso dos cegos de todo o mundo, é o resultado de vários anos de estudo por parte do Subcomité sobre Musicografia Braille da União Mundial de Cegos e é a continuação do conjunto de manuais publicados após as conferências de Colónia (1888) e Paris (1929 e 1954), contendo ainda as resoluções e decisões tomadas pelo referido Subcomité nas conferências e acordos celebrados entre 1982 e 1994.

 

 

 

c) A INFORMÁTICA E O APERFEIÇOAMENTO DE SOFTWARES DE MÚSICA MANEJÁVEIS PELOS CEGOS

 

 

No campo da informática há muito trabalho investido, com progressos já bem visíveis e prosseguem diversas e afanosas investigações, visando a concretização dos meios para que os cegos possam digitalizar, escrever, tratar, imprimir, converter, exportar e importar ficheiros, compor, orquestrar, fazer alterações, isto é: ter a possibilidade de manejar e rentabilizar os softwares musicais disponíveis e usufruir das ferramentas que facilitam a vida aos músicos normovisuais.

            Tem-se apostado bastante em facultar aos cegos a escrita da música em Braille e imprimi-la para tinta e vice-versa.

Sucintamente, referirei alguns softwares e as suas principais tarefas:

1. GoodFeel - Transcritor de partituras a tinta para Braille. Funciona associado a programas de reconhecimento óptico de música.

2. Cakewalk e CakeTalking - Sequenciador Midi, tornado acessível aos cegos através de scripts para o leitor de ecrã Jaws.

Este ano foi substituído pelo Sonar, para o qual foram adaptados os scripts.

3. Braille Music Editor - Software que permite a escrita de música, utilizando o código Braille, permitindo depois a sua impressão, quer em Braille, quer em tinta.

4. Sybelius e SybSpeaking - Software de notação musical, que se tornou acessível aos cegos por meio de scripts também para o Jaws. Este software permite a impressão a negro, directamente, ou em Braille, usando o GoodFeel ou o Braille Music Editor.


 

Uma das curiosidades de alguns destes softwares é a transformação do teclado do computador em teclado de máquina Braille, usando as letras f, d, s (pontos 1, 2, 3) e j, k, l (pontos 4, 5, 6, respectivamente). O espaço assume a sua função normal. 

Desta forma, uma das regras essenciais para manejar os softwares é o conhecimento e domínio da Musicografia Braille.

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Pelo exposto se conclui que o Sistema Braille é uma escrita maravilhosa e repleta de recursos.

Todos os cegos o deveriam dominar correctamente e tê-lo presente nos momentos de trabalho e de lazer.

A informática é um instrumento de inegável utilidade para os cegos e também é urgente que eles a dominem em todas as suas ricas vertentes. Todavia, de modo algum, deve substituir o bom hábito de utilizar o Braille.

Só quem o conhece e o exercita pode, também, usufruir das benesses da respectiva Musicografia.

Formulo votos para que esta, finalmente, como sucedeu com o Sistema Braille, seja uniforme em todo o mundo, de maneira que os músicos cegos possam afinar pelo mesmo diapasão!

 

José Fernandes da Silva

 

 

Setembro de 2003

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O SISTEMA BRAILLE

 

(Trabalho apresentado na Vídeo-Conferência,

promovida pela ACAPO e que teve lugar

no dia 24 de Maio de 2001)

 

             Todo o tipo de escrita tem evoluído positivamente ao longo dos tempos. Sempre existiram diversificadas formas de escrita, atendendo às necessidades específicas dos usuários. A leitura surge como consequência imediata, na medida em que é preciso interpretar os escritos. E a leitura é uma das formas essenciais da apreensão do conhecimento humano, isto é, um infinito horizonte aberto sobre a realidade que nos envolve, onde constatamos aquilo que os outros sabem e pensam, encontrando-se no papel a cronologia dos acontecimentos desde há milhares de anos.

Até quase ao fim da Idade Moderna não há notícias de que alguém se tenha debruçado sobre a escrita e leitura para os cegos, visando a sua educação, valorização, promoção social e preparação profissional.

A primeira informação que nos chega situa-se em 1784, quando Valentin Haüy, um homem culto e de nobre coração, funda em Paris uma escola para instruir os cegos e prepará-los para a vida. Apologista das filosofias sensistas - defensoras de que tudo depende dos sentidos -, adapta o alfabeto vulgar, traçado em relevo, a fim de que as letras fossem perceptíveis pelos dedos dos destinatários.

Também, por essa época, Charles Barbier de la Serre, um capitão de artilharia, aperfeiçoava um código através de pontos, que podia ler-se com os dedos e era usado para encobrir o segredo das mensagens militares e diplomáticas, a que chamou "escrita nocturna" ou "sonografia".

Após várias alterações e melhoramentos, Barbier apresentou o método na instituição de Valentin Haüy.

Foi a partir deste código que Luís Braille iniciou a sua investigação, no intuito de superar as imensas dificuldades que se lhe deparavam a todo o instante e oferecer aos seus congéneres um sistema que lhes abrisse as janelas para o amplo mundo da cultura, que lhes estava vedado.

Nascido a 4 de Janeiro de 1809, de uma família modesta, Luís Braille era natural de Coupvray, uma pequena aldeia vizinha de Paris. O pai era correeiro e, quando um dia o filho, apenas de 3 anos, brincava com uma sovela, feriu-se num dos olhos, tendo-se a infecção propagado ao outro, provocando a cegueira total.

Em 1819 o pai conseguiu interná-lo na instituição de Valentin Haüy, onde se revela um aluno inteligente, empenhado e sôfrego pelo saber. Aprende música e tudo quanto lhe é ministrado, sempre com distinção e bom aproveitamento.

Geralmente, aponta-se 1825 como o momento em que o jovem aluno inventa o sistema (que mais tarde veio a ter o seu nome). Todavia, apenas em 1829 publica a primeira edição do trabalho, sob o título: "PROCESSO PARA ESCREVER AS PALAVRAS, A MÚSICA E O CANTO-CHÃO, POR MEIO DE PONTOS, PARA USO DOS CEGOS E DISPOSTOS PARA ELES". Deu-lhe forma definitiva na segunda edição, saída em 1837.


 

O alfabeto Braille é constituído por seis pontos, em duas filas verticais de três, num total de 63 sinais.

Este processo de leitura e escrita através de pontos em relevo é usado, actualmente, em todo o mundo. Trata-se de um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se adapta a todas as necessidades dos utilizadores, quer nas línguas e em toda a espécie de grafias, quer na música, matemática, física, etc.

A criança cega deve iniciar a aprendizagem do Braille logo que entre para a escola, para que se não sinta diminuída em relação aos companheiros normovisuais. Numa escola especializada ela tem um acompanhamento de mais duração e pode trocar impressões com as suas congéneres, mas penso que o ensino integrado é de cabal importância para o deficiente visual.

É evidente que o ensino do Braille requer uma pedagogia específica, mas os fins a atingir são iguais aos da aprendizagem vulgar da escrita e da leitura.

O ensino deve ser bem orientado, já que se reveste de grande importância em todas as áreas e ao longo do percurso escolar os alunos devem ter um técnico que domine o sistema e possua competência pedagógica para os acompanhar, atendendo a que, à medida que progridem nos estudos, novos sinais de toda a ordem vão aparecendo.

É de enorme interesse doptar os alunos com os materiais de que precisam em Braille, mentalizando-os de que este sistema é, por excelência, a sua escrita e leitura e é nele que sempre se devem apoiar.

Se houver uma leitura persistente do Braille evitam-se os reflexos negativos na escrita, sobretudo no que diz respeito à qualidade do Braille e à ortografia.

Actualmente existe uma tendência para a pouca utilização do Braille e menos esmero na qualidade. Há quem defenda que a situação se deve ao aparecimento dos livros sonoros e de toda a tecnologia ligada à informática. Creio, porém, que as novas tecnologias não anulam o Braille, até porque ele facilita o manuseamento das mesmas.

 

Do que foi explanado podemos retirar as seguintes ilações:

- As crianças cegas devem ingressar nas escolas na idade própria e ser-lhes ministrado o Sistema Braille.

- O acompanhamento dos alunos deve ser mais intenso nos primeiros anos de escolaridade, alicerçando os anos vindouros.

- O Braille deve ser ensinado por técnicos competentes, que o dominem em todas as suas vertentes.

- O professor de apoio deve sensibilizar os alunos para que tirem o melhor partido dos equipamentos específicos disponíveis.

- A informática, os livros sonoros e demais tecnologias específicas são manancial de extraordinários recursos para o desenvolvimento cultural dos deficientes visuais, devendo estes ter sempre presente o Sistema Braille, como instrumento insubstituível na sua educação.

 

José Fernandes da Silva

 

Maio de 2001

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TESTEMUNHO SOBRE O BRAILLE

NA MINHA REALIZAÇÃO PESSOAL

 

 

 

             Iniciou-se com 10 anos na aprendizagem do braille no Instituto de S. Manuel. Dedicou-se aos estudos musicais, vindo depois a situar as prestações nos meios religiosos e populares. Foi telefonista/recepcionista até se tornar professor de Educação Musical.

 

Aos sete anos fui para a escola e vi nela a concretização dos primeiros sonhos, pois desejava aprender a ler e escrever.

 Feitas as provas de passagem para a classe seguinte, com 9 anos, um fulminante de dinamite, que fiz explodir, apagou para sempre a luz nos meus olhos. Desmoronavam-se os ambicionados anseios! Tudo eram dificuldades, impossíveis, desalentos e vontade de nada mais fazer. Não me saía da ideia a separação de tanta coisa bela que dantes contemplava! Não mais leria os bonitos trechos que ilustravam os meus queridos livros! Não mais expressaria os desejos e vontades na minha linda caligrafia! Não mais executaria os coloridos e expressivos desenhos! Tornara-me num inútil...

Em quatro longos meses de internamento hospitalar, eram estas divagações e o desânimo que me acompanhavam.

Um dia, uma simpática irmã de caridade, abordou-me e falou-me da possibilidade de reaprender a ler e escrever, através de um método especial que um senhor francês, ele também cego, tinha inventado e posto ao serviço dos seus congéneres em todo o mundo. Que sensação me invadiu a alma! E que ânsia de conhecer essa maravilha redentora me começou a devorar!

Nessa época era muito difícil ingressar numa escola especial. Só depois de um ano de muitos pedidos e influências foi possível internar-me no Instituto de S. Manuel, onde tive como mestres, competentes e dedicados, o Prof. Luís Ribeiro, Dr. Fernando Silva e, muitas vezes, a tirar dúvidas e a incentivar, esse baluarte da tiflologia portuguesa e verdadeiro amigo meu e de todos os cegos, o Prof. Albuquerque e Castro.

            Iniciei a aprendizagem do braille, essa "Bíblia" inesgotável que me tem acompanhado na vida. O cenário da sala de aula era a polirritmia dos punções, das pautas, do manejo dos cubos nos cubaritmos, do deslizar dos dedos pelas folhas de zinco ou de papel e pelos livros, enquanto eu tacteava um pequeno tabuleiro de madeira, onde se dispunham seis bolas, em duas filas verticais de três.

            Era um exercício excitante, reproduzir os 63 símbolos do Sistema Braille. Depois, passei para uma régua dividida em rectângulos, de seis furos cada, dispostos como no tabuleiro anterior, onde colocava pequenos pregos. Seguiram-se as folhas de zinco (com letras separadas, pequenas palavras, linhas espaçadas), mais tarde substituídas por folhas de papel, já com frases curtas, e, finalmente, dominados perfeitamente os caracteres, uns livrinhos com textos simples e cativantes, retirados do "Campo de flores" e da "Cartilha maternal". Não mais se me extinguiu no ouvido o som da azáfama da sala de aulas!


 

A primeira vez que juntei letras em palavras e comecei a ler, senti enorme alegria, porque a partir de então podia ler, escrever, fazer contas, decifrar desenhos e enterrar um ano de dolorosa escuridão. Rasgavam-se-me, assim, as janelas para o mundo da cultura, da educação, da comunicabilidade, para o campo profissional e do lazer.

Apesar das novas tecnologias, que admiro e uso largamente, jamais deixei um só dia de ler e escrever braille. Mesmo quando recebo textos digitalizados, gosto de os converter para relevo e tacteá-los. Sou seguidor dos princípios que me incutiram, e aconselho, - a necessidade de usar bem o Sistema Braille, quer na qualidade da escrita e para a fluidez na leitura, quer na estética do tratamento dos textos.

O Sistema Braille tem sido precioso na minha realização pessoal; mas gostaria de ressaltar alguns aspectos:

 

1. Plano educativo - O braille esteve sempre presente na minha educação; e a leitura e a escrita proporcionaram-me e fortaleceram o processo de aprendizagem a todos os níveis. Tive acesso a alguns manuais escolares, o que punha em pé de igualdade com os colegas normovisuais, sentindo-me frustrado sempre que não podia dispor deles. Assim, estudei línguas, contactando com a ortografia; exercitei a matemática e a física, disciplinas que exigem muita prática; estudei música, servindo-me da musicografia braille; pude discutir as matérias disciplinares; prestei provas escritas, pondo em evidência capacidades e dificuldades; sempre privilegiei a leitura e a escrita em braille.

 

2. Plano profissional - Convenientemente alfabetizado pelo método braille não me foi difícil a progressão nas metas a atingir: não teria sido um excelente telefonista/recepcionista e, actualmente, um professor de Educação Musical sem problemas, se não tivesse tido uma educação esmerada e persistente no manuseamento do Sistema Braille. Como telefonista/recepcionista pude criar a minha lista pessoal com os contactos mais usados na empresa; tomar apontamentos vários; registar mensagens de qualquer tipo, etc. Profissionalmente, o braille é um aliado inseparável e o gesto de escrever tudo o que elaboro dá-me mais segurança, permitindo-me maior criatividade e facilidade na organização do raciocínio.

 

3. Plano afectivo - Ler e escerever, em braille, ao longo da vida, tem-me proporcionado uma infinidade de satisfações: escrevo música, poemas, contos, trabalhos técnicos e académicos, crónicas para jornais e revistas; troco correspondência (excelente veículo para a permuta de ideias, bem como para contacto e conservação de amizades nascidas do companheirismo nas escolas, nos centros de reabilitação, em convívios, etc.); leio livros e textos de toda a índole, de carácter lúdico ou profissional.

 

4. Plano interpessoal - Neste particular, o braille tem-me facultado manter relações com diferentes tipos de pessoas, versando diversificados assuntos, como troca de ideias, partilha de experiências e opiniões sobre obras literárias e técnicas, música, jogos, informática, política, religião, etc.

 

 

Em conclusão direi que o braille me tornou a integração mais acessível: permitiu-me, globalmente, o desenvolvimento cultural, social e profissional, alargou-me o conhecimento em todas as vertentes, poupou-me ao tédio preenchendo-me com benesses os vazios do dia-a-dia.

No braille há ainda muito por explorar. Só o permanente contacto com a leitura e a escrita levará à descoberta de outras potencialidades. O braille é o amigo por excelência, o instrumento de que me socorro a todo o momento, o escape para o tédio, para a solidão, para as horas alegres e para o desânimo. É o catecismo que deve ser reconhecido de fio a pavio e dominado em todas as extensões. Sinceramente, pelos benefícios colhidos, solto um canto de júbilo, de exaltação, de agradecimento e acção de graças, em memória de Luís Braille, esse Cego notável, que legou aos parceiros da mesma condição o Sistema Braille, uma fantástica e inesgotável "Bíblia", que a todo o instante deve ser folheada!

 

In "Mãos que lêem - Testemunhos a Louis Braille"

- 150 anos da morte de Louis Braille

- (Editorial Minerva, p.51-54)

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GARRAS DO DESTINO

  

Na margem direita do rio Cávado é que o abastado lavrador possuía a sua melhor quinta. Nela fixara residência, porque lá tivera o berço e se criara. De tudo e em abundância se produzia naquela imensa e bem cultivada veiga, que dava trabalho diário a cerca de uma vintena de pessoas: algumas nativas da freguesia e outras vindas das aldeias limítrofes.

Estávamos na derradeira década do século XIX. O morgado da Veiga, boa figura e com um quarteirão de anos de idade, desposou uma jovem esbelta e também muito rica, de uma terra próxima. Só ao fim de meia dúzia de anos é que o casal viu concretizar-se um sonho, que a cada hora enleava e entristecia as permanentes e intermináveis conversas. Mas o prémio atribuído foi compensador: a mãe deu à luz uma menina bonita, qual serafim jamais visto! Nela depositaram as mais ardentes esperanças, porque, baldadas todas as tentativas, Deus não lhes concedeu mais filhos. E eles tanto os desejavam e tinham posses para manter um rancho...

Cresceu a Raquel, assim se chamava a benquista criança, bafejada pelos mais finos tesouros de mimo, de ternura, de beleza e de graça.

Em 1916, inesperadamente, o estremecido pai foi chamado para ir combater em França. Estremeceu, afligiu-se e abraçou-se à filha, tomou-lhe, com doçura, a mimosa cabeça e, olhando-a bem no fundo dos olhos, sob um fluxo de amargas lágrimas, gemeu e balbuciou: "Minha querida Raquel, que não te voltarei a ver... A minha partida vai separar-nos para sempre"...

Apesar da avultada fortuna e de múltiplos e influentes pedidos, não logrou alterar a terrível sentença: forçaram-no a seguir para as trincheiras da morte... Contudo, não morreu na feroz guerra, regressando dois anos depois... E, na realidade, bem melhor fôra ter perecido numa renhida fuzilaria do que acabar os dias, desconsolado, no tremendo vazio e sofrimento, que o aguardavam no seu antigo paraíso de felicidade...

Entretanto, Raquel completara 18 anos e, quase sem dar por isso, amava ardentemente e da mesma forma era correspondida por um garboso moço, filho de uma família vizinha e respeitável, que terminara, brilhantemente, um curso de Direito, na universidade de Coimbra.

À luz do dia e e pelo luar ou escuridão da noite, sucederam-se imensos e idílicos encontros e era cada vez maior a chama que os iluminava e sustinha.

Em certa noite, alvoroçada, mas convicta e enternecida, Raquel tinha uma feliz notícia para confidenciar ao seu bem amado: estava grávida!

Esperou toda a noite e todo o dia, mas ele não apareceu... e nunca mais apareceria...

Por linhas travessas ouvira que o filho do sr. Arturinho das Levadas, como era o alcunhado, misteriosamente, havia desaparecido, sem deixar uma pista que lhe seguisse o rasto.

Cismava na hipótese de ele se ter cansadodela, ou até entregar-se a outra e, covarde ou delicadamente, ausentar-se, nada lhe revelando... Empalideceu e começou a definhar, alarmantemente. Deixou de se alimentar e de sair do quarto. Visitaram-na febres e alucinações. Ninguém a consolava. E, numa noite ventosa e gelada de um frio Janeiro, furtando-se à vigilância apertada da mãe e dos serviçais, saiu de casa, alucinada, em louca correria e, soltando um grito lancinante, precipitou-se na forte corrente das volumosas águas do Cávado, que passava a uns duzentos metros da casa solarenga...

Quando se aperceberam do seu desaparecimento já era tarde: no dia seguinte, aureolado pelo sol do meio-dia, percorridas três léguas, o cadáver, a boiar, foi recolhido perto da vila de Prado...

Esta comovente história foi-me narrada há uns vinte anos por um septuagenário muito amigo e a propósito de uma ossada humana que aparecera em Maio de 1936, na já referida quinta, quando se abria uma extensa vala, para entubar a água duma nascente, explorada numa bouça mais alta da propriedade.

"Feitas as devidas averiguações" - prosseguiu o venerando ancião - "concluiu-se que se tratava do esqueleto do filho do sr. Arturinho das Levadas, de quem há 19 anos se ignorava o destino. Embora o esqueleto estivesse ainda muito uniforme, o que levou à imediata identificação foi o encontrar-se-lhe ao peito um medalhão de oiro com o retrato dos pais"...

"E qual foi a causa da sua morte e porque se manteve assim tão sigilosa"? - Perguntei, a fervilhar de curiosidade.

"Era uma época de grande fome e de muito roubo. Na última noite em que se encontrara com a moça, ao regressar a casa, com mil cautelas, dois criados, de longe, não o reconheceram, julgando tratar-se de um larápio. dispararam dois tiros de caçadeira e deram-lhe morte repentina. Chegados junto da vítima inocente, arrepiados, reconheceram o namorado da sua jovem e estimada ama. Atónitos, envergonhados e cheios de remorsos, concordaram que a única e melhor solução era enterrar o defunto, destruir todos os vestígios e guardar inviolável segredo do funesto acontecimento..."

 

Setembro de 2004

 

            Jornal “O Mourinho”

 

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