Teria os seus sete anos, a Marília, quando, naquela risonha e linda manhã de Maio, banhada por um sol quente e esplendoroso, deixou a sua humilde casinha e, como habitualmente, a transbordar de alegria, partiu rumo à escola.
A passarada gorjeava, descuidadamente, por entre as ramagens muito verdes e o colorido de incontáveis andores floridos, erguidos aos céus e asseados por toda a casta de pétalas sedosas e perfumadas.
Não era longe o estabelecimento de ensino e, como não tinha quem a fosse buscar, porque o pai era jornaleiro e trabalhava de sol a sol e a mãe fazia limpeza em diversas casas, a pequena, terminadas as aulas, regressava ao lar, onde, como sucede a milhões de crianças, espalhadas por todo o mundo, passava a maior parte do tempo sem companhia.
Naquele dia, contudo, não voltou.
Os pais admiraram-se da anormal demora da filha. Já principiava a cair a noite e ninguém dava notícias que conduzissem à sua localização. Apenas os colegas confirmavam que ela fôra às aulas e passara todos os intervalos, estarrecida e sem brincar, lá ficando quando se encerrou o portão da escola, junto de um pequeno circo, que no largo frontal ao edifício se tinha montado, exibindo três sessões espectaculares e que naquela tarde partira em busca de outras paragens.
Adultos, jovens e crianças se irmanaram numa busca minuciosa, que resultou infrutífera.
Alertaram-se as autoridades que, nessa mesma noite, deram início a uma rigorosa investigação. Entrou em acção a judiciária, que vasculhou tudo quanto era sítio, procedeu a interrogações e não se vislumbrava o encontro da ponta do fio da meada.
Toda a comunicação social se empenhou em noticiar o funesto desaparecimento, exibindo os jornais e a televisão fotografias da criança...
Dois dias depois, próximo do meio-dia, uma rádio, com enorme e justa audiência, interrompia a emissão e o locutor, nervoso, comovido, sensível e satisfeito, anunciava:"Foi encontrada a menina de sete anos, que há dois dias, misteriosamente e sem deixar o rasto de quaisquer pistas, não regressou a casa no fim das aulas, como sempre fazia. Num telefonema para a nossa redacção, um empresário de gado caprino, informa que um seu velho pastor, ontem, a encontrou num monte, muito cansada, a dormitar e triste. Pegou nela e recolheu-a na sua cabana, trazendo-a, hoje, para a casa do patrão que, sabedor do episódio, logo procurou contactar-nos. Para que não restem dúvidas e para satisfação dos familiares e de numerosos estimados ouvintes, encerramos este flache especial e em cima do acontecimento, com as declarações da Marília".
E, entre alegre e a choramingar, ouviu-se a vozita da catraia: "Gostei tanto das pessoas e dos animais do circo que resolvi acompanhá-los, escondendo-me numa das caravanas, sem que alguém me descobrisse. À noite, a companhia parou num local para comer. Como pude, saltei para a rua e comecei a andar, a andar, sem saber onde estava nem para onde ia. Com muito luar a mostrar-me carreiros e montes, até me cansar, fui sempre caminhando. Adormeci e, a meio da manhã, o sr. José encontrou-me, levou-me para a sua cabana, deu-me de comer e de beber e pediu-me que não chorasse mais, porque me prometia que hoje já voltaria para a casa dos meus pais, que é o que eu mais quero..."
Setembro de 2004
Jornal “O Mourinho”
Conheceram-se na escola, com a bonita idade dos catorze anos, dois troncos primaveris prenhes de seiva, de ramos floridos e vigorosos. Foi um amor à primeira vista, que se solidificou e teve concretização, porque, após cinco anos de apaixonado namoro, se realizou um solene e concorrido casamento no bonito santuário, ex-libris do seu concelho natal.
Chegados de uma prolongada e deliciosa lua-de-mel reassumiram os seus postos de trabalho, na firma onde ambos laboravam e auferiam remunerações muito satisfatórias para a época, já que se tratava de uma empresa desafogada, sobretudo porque apostava quase exclusivamente na exportação.
O tempo foi decorrendo e não havia sinais de descendência. Nasceram as mútuas suspeitas e acusações sobre a infertilidade. E nem um nem outro dava a mão à palmatória, nem se decidia a consultar um especialista e seguir os conselhos e terapêutica adequada, que levasse à satisfação de tão lindo, justo e ambicionado sonho.
Nesta indecisão consumiram dez anos e tentaram aceitar a pesada sentença, que tão injustamente os punia, não os deixando gozar a felicidade da grande maioria dos casais.
Por alturas do Vinte e Cinco de Abril de 1974 (essa maravilhosa festa dos cravos vermelhos aos molhos, saudável revolução que muitos, maldosamente, desviaram dos nobres fins que a nortearam, baldando a perseverança e generosidade dos bravos capitães que a sonharam, delinearam e garbosamente promoveram), entrou a firma numa grave crise laboral, acabando por abrir falência e encerrar, lançando no desemprego cerca de duas centenas e meia de trabalhadores.
O ainda jovem e infértil casal, de repente, achara-se numa posição extremamente delicada e desconfortável. Bateram às portas de inumeráveis empresas e sempre os esperou a mesma resposta negativa. Então, como extremo recurso, surgiu a hipótese do marido poder emigrar. Muitas e sentidas lágrimas de parte a parte, rogando a esposa que a não deixasse sozinha, porque não resistiria a tão cruel separação.
"Mas não existe outra forma de resolvermos a nossa vida". - Contrapunha ele, afectuosamente, acrescentando: - "O mais breve quanto possível estarás junto de mim, pois é doloroso viver sem a tua amorosa companhia. Vou escrever-te e telefonar-te bastas vezes e ter-te-ei sempre bem presente no meu coração".
"Depressa te esquecerás das promessas e de mim". - Retorquiu lhe ela, profundamente triste e desconsolada.
No fim do Verão ele partiu. A correspondência foi constante ao longo dos primeiros seis meses. Chegou o Natal e passaram-no cada um no seu canto. Festejou-se a Páscoa e permaneceram longe um do outro. Regressou o Verão... e ele não veio...
Os espinhos, que já há tempos a feriam como gumes de aguçadas lanças, afundavam-se mais e mais e dilaceravam-lhe o despeitado coração... Soube que ele tinha outra mulher e esperavam já um filho!
Ainda pensou surpreendê-lo em Paris e esmagá-lo com ódio e desprezo. Mas para quê, se ele se dera a outra? Se a esquecera tão depressa? Se lhe não podia dar um filho, porque agora tinha a prova de que era apenas sua a culpa... A inexistência de filhos fazia com que faltasse entre ambos um sólido e terno elo de união.
Também há muito que um outro homem lhe fazia a corte, perseguindo-a com promessas e juras de verdadeiro amor: eis a forma de vingar-se. E vingou-se, pois aceitou viver com o persistente e apaixonado solteirão...
E coisa extraordinária e milagrosa: engravidou de imediato e, cumprida a gestação, recebeu o prémio de uma gorducha, perfeita e encantadora menina!
Louvado seja Deus, pelo mistério insondável!...
Como é explicável que dez anos de paixão e mútuo desejo de povoarem o lar com a ternura e os alegres chilreios dos filhos, se pautasse por tão castigadora e teimosa esterilidade?...
Agosto de 2004
Quase na extrema da minha aldeia natal com Briteiros, o Moinho Velho era um sítio desabitado e pouco aprazível.
Da estrada nacional entrava-se por um caminho estreito e íngreme, ao fundo com uma pontinha de pedra tosca, sem quaisquer resguardes, sobre o rio Fêveras, nascido em Pedralva, na serra do Carvalho e que ali corre ao encontro da margem direita do Ave, onde vai desaguar, em S. Cláudio do Barco.
A meio do curto caminho, à esquerda de quem desce, erguia-se um rústico e não muito alto penedo, conhecido por "Penedo da Costureira".
Recebeu esse nome porque se contam algumas histórias relacionadas com aparições de uma bonita mulher, sentada a uma velha máquina de costura, no topo do penedo e, muito atenta e sem parar, a coser não se sabia o quê…
Há quase meio século, pela primeira vez, ouvi falar de tais aparições, numa das muitas agradáveis e extensas conversas com o seZezinho dos Caniços (um abastado lavrador, venerando e simpático ancião, que me queria como se de um filho se tratasse e que há muito partiu para o Céu, onde creio ter merecido assento, rogando eu ao meu Deus, no qual ele também sempre acreditou e seguiu na vida, que, entre os esplendores da luz perpétua, lhe dê o descanso eterno)!
Depois, no percurso dos anos, escutei mais do que uma versão sobre as estranhas estadias do fantasma no cimo do penedo.
Havia também quem sustentasse que um jovem de uma rica família rural se apaixonou pela costureira e que, num certo dia, a levou para casa, firmemente decidido a recebê-la como esposa. Todavia, à noite, descobriu que se tratava do demónio em figura de gente e, persignando-se repetidas vezes, fez com que a esbelta dama começasse a inchar e a crescer desmesuradamente, acabando por dar um estrondoso estoiro e uma rouca e lúgubre gargalhada, que tiveram intenso eco pelo vão.
Quando mais tarde se me proporcionou a leitura das "Lendas e narrativas", de Alexandre Herculano, lá encontrei a descrição pormenorizada de "A dama pé de cabra" que, ao fim e ao cabo, é uma das muitas histórias de Satanás, disfarçado nos mais variados géneros e personagens.
Sobre as causas de tais aparições é que nunca ouvi ninguém a argumentar…
O pequeno e rústico penedo ainda lá está, no sítio que continua ermo e pouco aprazível e a figura fantasmagórica da linda costureira também deixou de ser vista no topo da pedra secular...
Abril de 2005
“Boletim de Sobreposta”
Estava eu mergulhado num sonho das antigas e tão alegres lides campesinas, nomeadamente das sachadas e mondas do milho, das lavradas, das espadeladas do linho, das varejadas da azeitona, das desfolhadas, das malhadas de espigas e do feijão, das segadas do centeio e da erva, como que embalado pelos arrastados, bonitos e já quase esquecidos cantares tradicionais, quando me veio à lembrança um episódio pouco comum, que o meu pai, há muito, me narrou, do seu avô materno, que não resisto à tentação de o partilhar convosco:
No início do século passado, o seInácio era um homem trintão. Hábil caçador e pescador, também era considerado o melhor segador de centeio e de erva, de que havia memória em Lageosa e nas redondezas. Jeira onde ele investisse era como se por lá passasse um vendaval! Mas, valha a verdade que se diga, gostava de fazê-lo com a companhia de umas abundantes pingas do prisioneiro das pipas!
E de uma vez, a meio da tarde de um dia quente de Junho, quando regressava da distribuição da moagem e tangia os burros para casa, na Veiga, encontrou a seMariquinhas dos Caniços, que à cabeça carregava um cântaro de vinho, destinado a dessedentar o muito pessoal que, sob um sol intenso e abrasador, segava o centeio, no campo do Moinho, na margem do rio Fêveras.
“Ó Inácio, vai uma pinga?!” – perguntou, com toda a franqueza, a bondosa e santa proprietária, certa da resposta pronta e afirmativa do interpelado.
“Se vai, seMariquinhas! É que vem mesmo na hora!...”
Pegou no cântaro, deitou-lhe os queixos e, de um fôlego, levou-o até meio. Ia a entregá-lo, quando a boa senhora lhe disse:
“Ó Inácio, já que tenho de ir a casa e tenho, acaba lá com esse restinho…”
Ora, o Inácio, não se fez rogado e, num segundo fôlego, sugou o cântarao até à derradeira gota!
Agradeceu e entregou a vasilha à atónita senhora, que não teve outro remédio senão voltar a casa, a fim de se reabastecer.
A restabelecer-se da empreitada, enquanto limpava o bigode, sorridente e decidido, declarou:
“Vou lá abaixo desarrear os machos e apareço no campo para deitar uma mão…”
Apareceu, de facto, em curto espaço de tempo, fez um brilharete, merendou e ainda bebeu da segunda e da terceira remessas.
Depois, à noite, na espaçosa varanda da grande casa de lavoura dos Caniços, regou uma farta e saborosa ceia, certamente semelhante a tantas que lá me regalaram e que hoje, nostalgicamente, me vêm à memória, porque me deram um prazer incomparável!...
Junho de 2005
“Boletim de Sobreposta”