A Prosa de josé Fernandes da Silva
Dizia François Mauriac que “a leitura é uma porta aberta sobre um mundo encantado”. É verdade! De facto, foi através de um “RECEPTÁCULO” de palavras que eu pude entrar num mundo de aventura ficcionista que me aumentou a muita consideração que eu nutro pelo seu autor. O ACTO DE ESCREVER é uma tarefa difícil e solitária, como num dos seus romances José Saramago escreveu: «Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores...». Se atentarmos no acto de escrever veremos que nele se ocultam responsabilidades várias: a responsabilidade estética, a cultural, a cívica, e a ética. Ao longo da leitura do “Receptáculo”, um punhado de pequenas narrativas transportam-nos através do tempo e do espaço e familiarizam-nos com destinos individuais e colectivos, de histórias ficcionais, onde estas responsabilidades se manifestam. Mas o acto de escrever é também acto mágico que se abre ao mundo da imaginação e do mito! Acto que acalma a ânsia de saber e do desejo de conhecer! Acto que transporta uma mensagem a que não poderemos ficar indiferentes. Como seu leitor, quero com estas palavras prestar homenagem ao José Fernandes, como homem da casa, dinamizador de cultura que se preza de ser. Quando o vejo e cumprimento, dá-me todos os dias uma lição de humildade! Não se vangloria da obra publicada, antes aspira sempre a mais, apenas manifestando o orgulho natural do trabalho cultural já desenvolvido. Não vive da ilusão, e sabe-o por experiência própria, de que a criação literária não vem do nada, graças apenas ao toque fabuloso da sorte na fronte do escritor. Sabe bem como todo o escritor de corpo inteiro, o trabalho que é necessário, o labor continuado a que Camões chamava «honesto estudo» para que se possa chegar à obra feita. Eu sei que o José Fernandes ainda nos dará outras obras fazendo jus ao talento que aqui celebro. Quem nos faz reviver o tempo e o espaço, momentos que celebram a natureza e a nossa gente, fá-lo também porque interpretou a condição do escritor sob o signo do trabalho metódico, árduo e silencioso. Por isso, é com orgulho e honra que hoje aqui lhe reconheço as qualidades acima do homem comum, e sinto-me honrado por cruzar os mesmos corredores do nosso local de trabalho. Sei, porém, que o José Fernandes jamais se deixará tolher pelos mecanismos da fama e da consagração, própria daqueles que praticam a facilidade como princípio. Entre outras e muitas qualidades, este é um escritor que assume a noção – e disso não se envergonha – de que há uma aprendizagem da escrita literária, uma longa aprendizagem que em José Fernandes passou pelo trabalho da poesia. Saúdo, pois, a apresentação deste trabalho em prosa e através destas palavras presto homenagem ao “nosso” escritor e agradeço-lhe a revelação de um mundo que, sendo nosso porque diz respeito ao homem, só o podemos saborear porque o “nosso” escritor o deu à estampa! Que estas palavras possam demonstrar um agradecimento sentido! Bem hajas!
Braga, Abril de 2006
Carlos Gama Nogueira
“ Os livros são as abelhas que levam o pólen da imaginação de uma mente para outra”
James Lowell
Parafraseando James Lowell, esta nova obra de José Fernandes da Silva, tem a capacidade de transportar o pólen da sua capacidade criativa, desta vez em prosa, para os que, sendo crianças, jovens ou adultos, amam a leitura e fazem dela poder criador.
Lê-se esta obra com gosto e, à medida que se percorre este “ punhado de narrativas”, vai-se descobrindo a facilidade com que o autor se adapta a outros estilos de escrita, como a ficção, e a simplicidade como partilha momentos de uma infância cheia de sonhos mas que teimosamente se quer esconder no tempo. Cada conto, lenda ou relato são verdadeiros hinos a valores em que acredita, tais como a justiça, a gratidão, a solidariedade, a honra,…
A referência aos elementos da Natureza bem como à sua educação religiosa são já paradigmas do seu estilo e da sua obra poética e musical. Mas neste “Receptáculo”, o seu amor a Deus, exteriorizado na desejada perfeição da natureza, na bondade humana, na sabedoria transmitida pela velhice e na imprescindível presença da mulher e mãe na terra, reflecte-se em cada palavra, em cada frase, em cada narrativa.
José Fernandes da Silva consegue, ainda, expor, de uma forma clara e simples, as relações intergeracionais de outrora, nomeadamente a ligação afectiva entre avós e netos e, sobretudo, relatar tão docemente memórias de um passado cheio de ruralidade e cuja riqueza vocabular faz os leitores regressar às origens das gentes minhotas. À pobreza aldeã de tempos idos é associado o fenómeno da emigração (que tanto fez separar pais de filhos), inerente ao subdesenvolvimento do povo do norte que procurava uma vida melhor.
Todavia, é o cariz pedagógico desta obra que lhe confere uma mais valia, na medida em que não há conto, nem lenda, nem relato que não apele à reflexão de quem o lê. Efectivamente, na lenda “Covardia” pode-se destacar que “Nem tudo na vida são rosas delicadas e inofensivas” que cada indivíduo deve estar sempre preparado para uma “inesperada emboscada”, expressões que nos remetem para aspectos autobiográficos referenciados na presente obra. No conto “Na Levada” também se pode observar oportuna pedagogia, quando um das personagens, sensível e replecta de experiência de vida, tal como José Fernandes da Silva, adverte “Na vida hás-de achar incontáveis momentos como este que, em lugar de te premiar, te farão verter amargas e copiosas lágrimas…”. E se se atentar no conto “Um Acto Heróico”, é-se confrontado com a dimensão humana do trabalho e do esforço individual ou colectivo como condições endógenas à realização do que se quer concretizado. Aqui, o autor, ora revelando alguma resignação com a sua sina, ora pretendendo alertar os mais incautos, afirma “No percurso da vida verificamos que não pode suceder tudo como ambicionamos, tendo que existir esforço e garra para atingir os fins a que nos propomos. E a vida só é bela se a soubermos viver, saboreando as conquistas, ou os nadas do dia-a-dia. Cada pequena batalha, ganha honestamente e fruto de constante empenhamento, deve ser motivo de efusiva alegria.”
Parabéns José Fernandes
A comunidade educativa agradece
Maria da Conceição Maia