Narrativas


ÍNDICE


A Encomenda

A Nogueira

Adeus Eterno

Ajuste de Contas

Garras do Destino

Inesperado

Naufrágio

Um Acto Reprovável

Aleivosias

Fraternidade e Amor



A ENCOMENDA

O Alexandrinho era um abastado lavrador e muito sovina! Não dava esmolas aos pobres que estendiam a mão à caridade, pensando sempre em aferrolhar dinheiro e até, era voz corrente, que às vezes, se comia mal em casa dele, só para não gastar... Por isso, quem o conhecia, em jeito de troça, dizia que ele dava uma fraca morcela em troca de um bom presunto!

Ao mesmo tempo era fanfarrão e convencido, gabando-se de que ninguém lhe entrava em casa, porque estava bem armado, com a caçadeira sempre carregada e   mão de disparar, bem como uma boa pistola, que dormia com ele, debaixo do travesseiro!

Frequentemente, na aldeia e arredores, praticavam-se roubos e morava perto da sua enorme casa de lavoura um refinado larápio, o Manuel, de alcunha *Mão Ladina*, pois tinha agilidade para aliviar o seu semelhante de uma carteira, de umas moedas, ou de objectos de estimação e valor, e claro está, não fazia outra coisa senão mexer no que lhe não pertencia!

Assaltava as casas, quer de noite, quer de dia, ou ainda aparecia nos caminhos, saído de locais inesperados, chegando mesmo a actuar em sítios públicos.

Mas era um larápio sociável. Onde se encontrasse com alguém conhecido, delicado e sorridente, confraternizava.

Como sucedera tantas vezes, certo fim-de-tarde, numa taberna concorrida, famosa por servir bons petiscos e pinguinha de consolar, encontraram-se os dois, de tigela na mão, a molhar a palavra, e também, uma vez mais, o lavrador, como em provocação, a dizer-lhe:

"Em minha casa ninguém entra sem que eu autorize, senão pode trabalhar uma tranca, ou mesmo um gatilho! Além disso, tenho portas bem seguras e bravos cães de guarda..."

"Acredito, acredito, Alexandrinho... De qualquer modo, tenha cuidado, porque o diabo é tendeiro... E como diz o outro «cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém...» Numa hora menos feliz e de distracção tudo pode acontecer..."

"Ah, ah, ah!, mas eu previno-me e sei que posso dormir descansado: seguramente que a minha casa é como uma fortaleza!" - e escorripichava a malga, que pousava no balcão, com força, e esfregava as mãos, forjando um largo sorriso escarninho.

"Assim será, assim será, mas cuide-se: olhe que o diabo tece-as..."

 

 

Na manhã seguinte, estava o sol a levanter-se, o Alexandrinho ouviu bater a aldraba do grosso portal de castanho e foi espreitar pela janela, voltada para um largo terreiro, asseado com várias moradias. Ficou assarapantado, porque deu com os olhos no *Mão Ladina*, observando que apresentava um ar de boa disposição.

"Madrugaste, homem! Há novidade?"


 

"Não, não, Venho só entregar-lhe uma encomenda, Alexandrinho! - respondeu prontamente e a sorrir, o visitante. E prosseguiu - Faz favor chega aqui, só por um instantinho?!"

"Lá vou, lá vou... - respondeu, intrigado e saiu a remoer - Que demónio de encomenda vem ele trazer-me? E tão cedo e tão sorridente..."

Desceu as escadas de pedra, atravessou o espaçoso quinteiro, abriu o portal e estava frente-a-frente com o madrugador.

"Então que é da encomenda, Manuel?"

"Está aqui... - Meteu a mão ao bolso interior do casaco e apresentou-lhe uma pistola, que o proprietário, incrédulo, atarantado e com leves tremuras, logo reconheceu ser a sua – Tome-a lá e seja mais cauteloso, para que lha não voltem a ir buscar debaixo do travesseiro, enquanto dorme..."

O lavrador, recobrado da surpresa e com palavras mansas, galhofou:

"Ó espertalhão de uma figa, por onde entraste?"

"Pelo telhado, a meio da madrugada, que era o sítio mais seguro e prático..."

"Bem, bem, Manuel, agradecido, muito agradecido. Que isto fique só entre nós... Ninguém precisa de saber da tua habilidade... Agradecido, muito agradecido... E, a partir de agora, tens a minha casa às ordens e não precisas de subir ao telhado para entrar..."

 

Setembro de2005

 

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A NOGUEIRA

No bem cuidado quintal do venerando ancião é que se encontra uma raríssima nogueira, atendendo ao excepcional diâmetro e altura do tronco e ao comprimento dos grossos e verdejantes ramos, que bem podiam formar, individualmente, uma robusta descendente.

Trata-se, com efeito, de um exemplar colossal, alvo de muitas e curiosas visitas, fazendo pasmar os olhos que o contemplam!

 E, quanto a frutos, então, apesar da velhice, parece que cada ano produz mais e de melhor qualidade...

Quem se sente lisonjeado e enternecido é o dono, que se não cansa de narrar a sua tão simples e comovente origem:

"Tinha os meus sete anos quando, numa certa tarde de Novembro, ao regressar da escola, pela mão de meu pai, no valado de uma propriedade, rodeada por um denso herbanário, enxerguei uma minúscula planta, isto é, uma vergastinha. Com jeito, arranquei-a e disse ao meu pai que a ia plantar no nosso quintal. Ele sorriu, carinhosamente, e não fez comentários.

"Chegados a casa, sem perder tempo, peguei num sachinho (uma estimada relíquia, que, amorosamente, ainda conservo, prenda da minha bisavó paterna, cerca dos meus quatro anos, e que, morrendo já tão velhinha, nunca deixou de /"foçar na terra/", como costumava dizer, cheio de ternura e banhado por largo sorriso, o meu avô) e, com todo o cuidado e enorme fé, executei os passos que seguiam os meus ascendentes.

"Depois, todos os dias a ia visitar, não me esquecendo de regá-la sempre que achasse necessário.

"A meio da Primavera imediata nasceu uma folhinha e o meu pai disse-me, meigamente, admirado e feliz: /"É uma nogueira, Manuel!/"

"Este regalo da natureza tem sido e é a menina dos meus olhos! Não me fatigo nunca de a mirar e, ao vê-la assim tamanha, penso no dia em que a encontrei, arrancando-a tão enfezada e sem lhe saber o nome, do esmero no plantio, bem como todas as fases do seu crescimento...

"E já lá vão quase setenta anos, que os completa no próximo mês!..."

 

Outubro de 2004

 

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ADEUS ETERNO

A Tânia era uma jovem, que vivia triste e sozinha, sem o calor de um afecto. O pai, pescador arrojado, num naufrágio, em certa noite tormentosa, ficou sepultado no fundo do Atlântico. A mãe não resistiu à paixão e, volvido um ano, foi a enterrar, deixando-a com umas tenras quatro Primaveras.

Morava pertinho do mar e habituou-se a respeitá-lo e a ter-lhe amor... E dele, num inesquecível dia, também lhe chegou a felicidade, trazida por aquele gentil moço embarcadiço, realizando o seu belo sonho!

Amaram-se, casaram e desejaram um filho, que se não gerou...

Marco, inúmeras vezes e disfarçando, sentia desejos de voltar ao mar traiçoeiro e sedutor... Tânia, quando ele, de leve, abordava o doloroso propósito, entristecia-se e, com imensa ternura, rogava-lhe que não partisse. Também, meigamente, ele foi adiando e prometendo que ficaria.

Mas o mar não cessava de o chamar!

Na casita onde viviam, ouvia-o, lá ao fundo, quer na procela, quer na calma... Era um feitiço de que não conseguia libertar-se...

E uma certa manhã, sem nada dizer, para não magoar a sensível e amada companheira, embarcou...

Ela, porém, desconfiou e foi ao cais, para dizer-lhe adeus...

Acenou-lhe com um lenço branco, que também servia para limpar as copiosas lágrimas que lhe lavavam o rosto dolorido... E ele, mirando-a, cada vez mais afastada, correspondia aos acenos...

O barco foi desaparecendo, vagaroso, sulcando a alva e leve espuma e as ondas inofensivas e silenciosas...

Nos vinte anos seguintes, tantas e tantas vezes, tornou ao cais, recordando e vivendo a cena amarga da partida, na expectativa de que Marco regressasse, vendo morrer, lentamente, a esperança, porque não mais voltou...

O que teria acontecido, santo Deus?! Morreria como o pai, tragado pela imensidão e profundeza das águas?! Deixaria de a amar e esquecê-la-ia?! Ter-lho-ia disputado uma outra mulher num qualquer porto onde desembarcasse?!

Continuou, apesar de tudo, a esperá-lo, indo ao cais, de manhã, pela tarde e até pela noitinha, envolta por subtil manto de saudde...

Marco fôra o único e grande amor da sua vida!

Por isso, quando a dor era mais atroz, até ao fim da vida, parecia-lhe que ainda ouvia a voz dele, a confortá-la, plena de suavidade, repetindo doces e maravilhosas palavras de amor...

 

Dezembro de 2004

 

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AJUSTE DE CONTAS

No princípio da década de 1860, Tomé Fernandes, que há uns 15 anos havia emigrado para o Brasil, regressava na posse de um avultado pecúleo, porque lá mourejara honestamente e a vida lhe correra de feição.

Numa aldeia vizinha do seu torrão natal adquiriu uma extensa e bonita quinta, restaurando uma ampla mansão, que ornamentou com fino bom-gosto, não descurando o conforto e o bem-estar, para residir com uma jovem e simpática rapariga, que escolheu numa conceituada família dos arrabaldes.

Casaram e, um ano depois, Deus povoou-lhes o lar com uma robusta e linda menina, baptizada com o nome de Margarida e que foi criada com desvelos e ternuras sem-fim.

Pelos dez anos, inesperadamente, uma terrível peste lhe arebatou, num curto espaço de duas semanas, mãe e pai.

Foi, então, entregue à tutela de um tio paterno, pai de quatro filhos, que orçava os cinquenta anos e que passou a administrar, ao seu belprazer, os fartos haveres herdados pela pequena.

Margarida, entretanto, bafejada por dotes de beleza da alma e do corpo, atingira as vinte Primaveras e tornara-se numa invejável e cobiçada figura.

Surgiam, em catadupa e das mais ilustres casas limítrofes e afastadas, inúmeras e aliciantes propostas de casamento. Ela, porém, delicadamente, ia rejeitando, sem revelar as fundas razões de tal procedimento. Até que, num certo dia, perante o aparecimento de um galante e sincero pretendente, que teve pronta receptividade no seu virginal coração, confessou, pedindo-lhe grande sigilo, ter sido violada pelo tio e que, se mesmo naquelas condições a aceitasse por esposa, se uniriam para gozar a felicidade a que tinham direito.

Aconteceu que o tio não aceitou, de ânimo leve, a decisão da sobrinha e, enquanto esta, a todo o custo, escondia o segredo e se envergonhava do sucedido, ele, zombeteiro, na roda de amigos e até na presença dela, sobretudo quando emborcava uns largos copos de álcool, o que era usual, por certo com ciúmes e com despeito, costumava proferir:

"Bebo à saúde do primeiro!..."

Ao fim e ao cabo saudava-se a ele próprio e a vileza cometida, de que, aliás, jamais sentira remorsos, rindo-se com visível malícia.

Margarida, com o tempo e com o amor-próprio ferido, decifrara o repetido piropo...

Desde a noite nupcial que Margarida se apercebeu de que o tio, pela calada da noite, como um abutre, espiava a intimidade do casal.

Amava o homem a quem se entregara com todo o ardor, porque a aceitara com a sentida desgraça e odiava aquele que a vilipendiara e perdera.

 Com toda a energia e sem nada revelar ao companheiro tomou uma inabalável decisão...

Dias volvidos, no silêncio da já batida meia-noite, vigilante, enquanto o marido dormia despreocupadamente, pressentiu a odiosa presença de quem tanto a humilhara e fazia sofrer.

 Abriu, com mil e uma cautelas, a janela do quarto, voltada para uma parte privada do jardim, disparando um bacamarte, que atroou os ares e largou uma densa nuvem de pólvora e um potente chuveiro de grãos de chumbo, que acertaram em cheio no vulto intruso, especado a uma dúzia de metros e iluminado por um claríssimo luar de Janeiro...

 

Setembro de 2005

 

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GARRAS DO DESTINO

Na margem direita do rio Cávado é que o abastado lavrador possuía a sua melhor quinta. Nela fixara residência, porque lá tivera o berço e se criara. De tudo e em abundância se produzia naquela imensa e bem cultivada veiga, que dava trabalho diário a cerca de uma vintena de pessoas: algumas nativas da freguesia e outras vindas das aldeias limítrofes.

Estávamos na derradeira década do século XIX. O morgado da Veiga, boa figura e com um quarteirão de anos de idade, desposou uma jovem esbelta e também muito rica, de uma terra próxima. Só ao fim de meia dúzia de anos é que o casal viu concretizar-se um sonho, que a cada hora enleava e entristecia as permanentes e intermináveis conversas. Mas o prémio atribuído foi compensador: a mãe deu à luz uma menina bonita, qual serafim jamais visto! Nela depositaram as mais ardentes esperanças, porque, baldadas todas as tentativas, Deus não lhes concedeu mais filhos. E eles tanto os desejavam e tinham posses para manter um rancho...

Cresceu a Raquel, assim se chamava a benquista criança, bafejada pelos mais finos tesouros de mimo, de ternura, de beleza e de graça.

Em 1916, inesperadamente, o estremecido pai foi chamado para ir combater em França. Estremeceu, afligiu-se e abraçou-se à filha, tomou-lhe, com doçura, a mimosa cabeça e, olhando-a bem no fundo dos olhos, sob um fluxo de amargas lágrimas, gemeu e balbuciou:

"Minha querida Raquel, que não te voltarei a ver... A minha partida vai separar-nos para sempre"...

Apesar da avultada fortuna e de múltiplos e influentes pedidos, não logrou alterar a terrível sentença: forçaram-no a seguir para as trincheiras da morte... Contudo, não morreu na feroz guerra, regressando dois anos depois... E, na realidade, bem melhor fôra ter perecido numa renhida fuzilaria do que acabar os dias, desconsolado, no tremendo vazio e sofrimento, que o aguardavam no seu antigo paraíso de felicidade...

Entretanto, Raquel completara 18 anos e, quase sem dar por isso, amava ardentemente e da mesma forma era correspondida por um garboso moço, filho de uma família vizinha e respeitável, que terminara, brilhantemente, um curso de Direito, na universidade de Coimbra.

À luz do dia e e pelo luar ou escuridão da noite, sucederam-se imensos e idílicos encontros e era cada vez maior a chama que os iluminava e sustinha.

Em certa noite, alvoroçada, mas convicta e enternecida, Raquel tinha uma feliz notícia para confidenciar ao seu bem amado: estava grávida!

Esperou toda a noite e todo o dia, mas ele não apareceu... e nunca mais apareceria...

Por linhas travessas ouvira que o filho do sr. Arturinho das Levadas, como era o alcunhado, misteriosamente, havia desaparecido, sem deixar uma pista que lhe seguisse o rasto.

Cismava na hipótese de ele se ter cansadodela, ou até entregar-se a outra e, covarde ou delicadamente, ausentar-se, nada lhe revelando... Empalideceu e começou a definhar, alarmantemente. Deixou de se alimentar e de sair do quarto. Visitaram-na febres e alucinações. Ninguém a consolava. E, numa noite ventosa e gelada de um frio Janeiro, furtando-se à vigilância apertada da mãe e dos serviçais, saiu de casa, alucinada, em louca correria e, soltando um grito lancinante, precipitou-se na forte corrente das volumosas águas do Cávado, que passava a uns duzentos metros da casa solarenga...

Quando se aperceberam do seu desaparecimento já era tarde: no dia seguinte, aureolado pelo sol do meio-dia, percorridas três léguas, o cadáver, a boiar, foi recolhido perto da vila de Prado...

Esta comovente história foi-me narrada há uns vinte anos por um septuagenário muito amigo e a propósito de uma ossada humana que aparecera em Maio de 1936, na já referida quinta, quando se abria uma extensa vala, para entubar a água duma nascente, explorada numa bouça mais alta da propriedade.

"Feitas as devidas averiguações" - prosseguiu o venerando ancião - "concluiu-se que se tratava do esqueleto do filho do sr. Arturinho das Levadas, de quem há 19 anos se ignorava o destino. Embora o esqueleto estivesse ainda muito uniforme, o que levou à imediata identificação foi o encontrar-se-lhe ao peito um medalhão de oiro com o retrato dos pais"...

"E qual foi a causa da sua morte e porque se manteve assim tão sigilosa"? - Perguntei, a fervilhar de curiosidade.

"Era uma época de grande fome e de muito roubo. Na última noite em que se encontrara com a moça, ao regressar a casa, com mil cautelas, dois criados, de longe, não o reconheceram, julgando tratar-se de um larápio. dispararam dois tiros de caçadeira e deram-lhe morte repentina. Chegados junto da vítima inocente, arrepiados, reconheceram o namorado da sua jovem e estimada ama. Atónitos, envergonhados e cheios de remorsos, concordaram que a única e melhor solução era enterrar o defunto, destruir todos os vestígios e guardar inviolável segredo do funesto acontecimento..."

 

  Setembro de 2004

 

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INESPERADO

O Vítor cumpria o seu primeiro ano de docência, depois de ter concluído o curso de Românicas e concretizado o estágio numa escola de Amarante.

Quando foi colocado no estabelecimento onde eu já leccioãava há uns anos, travámos uma cordial amizade, que ainda perdura, franca e desinteressada, apesar de estarmos cada um no seu canto, atendendo a que ele foi parar ao Alentejo, à espera de regressar para perto da família.

Naquele fim de tarde de quinta-feira muito chuvosa e fustigada por forte ventania, ao Vítor não lhe passava pela cabeça o atribulado e insólito cenário que, tão brevemente, o aguardava.

Natural do Alto Douro e de boa fmília, era um rapaz simples e simpático e, embora um pruco medroso, com facilidade criava boãs amigos.

Sabendo que eu rabisacva umas coisas confidenciou-me que também compunha e possuía muitos poemas, essencialmente de amor e dedicados à Sandra, jovem que muito amava e que frequentava o derradeiro ano de Farmácias, com o intuito de tomar conta do lugar de técnica da empresa do ramo que os pais possuíam na Régua. Prometera que traria esses versos, quais tesouros de ternura, para trocarmos impressões.

Nessa mesma quinta-feira partiu para o seu torrão natal, a fim de passar três dias no seio familiar e uns belos momentos idílicos com a namorada.

Tudo foi sumamente agradável, como suculento aperitivo para a semana de trabalho que se avizinhava.

Havia já uns vinte dias em que a meteorologia estava péssima, com trovoadas, bátegas intensas, ventos ciclónicos e os leitos dos rios a galgarem montes e vales. Ele, porém, fez as custosas despedidas e já anoitecia quando se meteu no automóvel e partiu rumo ao Minho.

Cautelosamente, percorreu meia dúzia de léguas de estrada sinuosa.

De súbito, perdeu o controle do veículo. Consciente do perigo, sem perder tempo, abriu a porta e, a muito custo, logrou alcançar terreno firme e salvar-se milagrosamente.

O veículo, todavia, a trabalhar e com os máximos ligados, viu-o a ser arrastado pela medonha intempérie, aos trambolhões, pela íngreme ravina, precipitando-se na corrente vertiginosa do Douro, que lhe abriu a sepultura na profundeza das águas implacáveis, levando consigo os versos que, ternamente, trazia para submeter à minha apreciação...

 

Dezembro de 2004

 

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NAUFRÁGIO

Decorria o último lustre do século dezanove quando d. Guiomar se decidiu a vender os seus avultados haveres, para ir juntar-se à única irmã, que residia em Buenos Aires, viúva e afortunada, também senhora de metade da herança deixada pelos pais.

D. Mariana era uma bonita rapariga e foi pedida em casamento por um rico comerciante argentino, que a conheceu no Bom Jesus do Monte, em 1860, já quarentão, num domingo à tarde, quando, integrados num numeroso grupo, desciam os escadórios e visitavam os calvários.

Casou aos dezassete anos e partiu para a América Central. Criou os filhos, dois robustos rapazes, e viu finar-se o esposo amado no dia em que festejavam as bodas de prata de casados.

Nunca mais pisou solo pátrio e vivia, com toda a alma e ternura, para o marido e para os filhos.

D. Guiomar, oito anos mais velha, bem lhe pedia que regressasse, porque possuíam o bastante para levarem uma vida faustosa, mas ela, mesmo viúva e com enormes saudades da irmã, não abdicou do amor aos filhos e à segunda pátria.

Quase trintona, d. Guiomar casou quatro anos após a irmã, com um abastado proprietário vizinho.

Teve uma filha, que não sobreviveu a febres altíssimas e foi a enterrar com três aninhos!

E o marido, que já estava acamado há uns meses, minado por funda e implacável tuberculose, foi juntar-se à filha, três meses depois, no jazigo de família...

D. Guiomar, vestindo sempre de luto, viveu na solidão cerca de trinta anos, cedendo, então, aos rogos da emigrante: vendeu todos os bens, atestou uns vinte grandes baús com um fabuloso bragal, inúmeros objectos de estimação, louças, pratas e muito ouro...

Marcou a passagem num navio que estabelecia a ligação entre o Porto e o Rio de Janeiro e embarcou no mês de Novembro, para ir consoar com a irmã e com os sobrinhos...

Os primeiros dias de viagem foram decorrendo com bom tempo e mar muito calmo.

Próximo das ilhas de Cabo Verde, começou a nublar-se o céu e a nortada a silvar agoirentamente. A noite descia com um denso nevoeiro, que nada deixava enxergar...

Quando despontou a manhã do dia seguinte, acapelado, o mar rugia como um louco e amedrontava. Adensaram-se cada vez mais as nuvens e, rapidamente, o sol encobriu-se, dando lugar a espessa escuridão, semelhando uma noite tenebrosa de Inverno.

Colheram-se as velas, porque o oceano desatou a urrar medonhamente. O piloto não conseguia controlar a embarcação e, esperançado, procurava alcançar terra, antevendo, exausto, outra noite a cair.

Relampejava intensamente e os trovões eram assustadores.

De repente, naquele balanço furioso e desordenado, escutou-se um estrondo seco e brutal no casco do navio, que embateu de encontro a um rochedo e encalhou!...

Ouviam-se as súplicas aflitivas e os gritos lancinantes da tripulação e dos passageiros.

Mais e mais os relâmpagos azulavam os abismos e os trovões pareciam potentes canhões a digladiarem-se!

Subitamente, a galera, depois daquele choque violento, estacou, ofegante, com as vagas, raivosas, a tentar remover o obstáculo incómodo...

Por fim, com ímpeto, uma força misteriosa inundou todos os compartimentos da embarcação e, num ápice, precipitou-a, a pique, para a profundeza das águas revoltas...

D. Guiomar, com os cabelos eriçados, aos soluços, tremente e atónita, ocupava um escaler, que a transportava para a areia...

E, de mãos erguidas, em prece fervorosa, viu desaparecer o derradeiro sinal do navio, que lhe levava, a sepultar, uns vinte grandes baús, atestados de tesouros de riqueza, de saudades e de memórias!...


Dezembro de 2005

 

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UM ACTO REPROVÁVEL


(...) A mãe, como sempre, não abriu a boca...

O pai, porém, com as faces marejadas por grossas lágrimas e com a voz rouca e embargada, fitando Elton, bem de frente, com um olhar incrédulo, duro e reprovativo, segurando-lhe, com firmeza, o pulso ensanguentado, proferiu: "Por que foste tão cruel? Não há perdão para um acto destes: terás o castigo que mereces, porque, embora muito triste e magoado, não sinto por ti pena alguma. Vou fazer o que deveria ter feito há muito tempo, entregar-te às autoridades competentes, a fim de seres julgado e severamente punido, por tão horrendo crime... Sempre reprovei as tuas más acções, mas estava longe de pensar que serias capaz de praticar esta monstruosidade!..."

É bem recente (e infelizmente igual a tantos) o episódio que me proponho narrar.

Numa aldeia minhota, nos arrabaldes de Braga, vivia um casal de meia-idade, com um filho de catorze anos.

Agricultores remediados e trabalhadores, praticavam uma lavoura activa e mecanizada, auferindo excelentes frutos da sua perseverança.

Albano era um bom homem, muito religioso e pacato, que pensava mais nas lides agrícolas do que naquilo que se desenrolava à sua volta. Queria ser um bom pai, mas esbarrava sempre com o feitio de Joana, que em tudo defendia o filho.

Neste clima foi a criança crescendo, bafejada com todos os mimos, vícios e vontades satisfeitas.

A mãe, portanto, permitia que Elton cometesse toda a espécie de infracções, rindo sempre das suas tropelias e pagando, sem regatear, às escondidas do marido, os prejuízos que ele causava, não havendo lugar para admoestações ou castigos.

Muita gente se queixava e dizia que ele era um maroto e malcriado, mas em vão, pois a atitude da mãe não se alterava.

Por uma linda tardinha estavam os três no amplo e mimoso quintal, contíguo à bonita e confortável vivenda. Preso à corrente estava um corpulento e estimado mastim, que ladrava e fazia rompidas, para afastar Um bando de galinhas que, à procura de bicharada, se aproximava do seu território. O adolescente, colérico, munindo-se de um fueiro, ali ao seu alcance, inesperadamente, bradou: "Está quieto e calado, estafermo, que te racho essa cabeçorra!"

"Deixa lá, rapaz: o bicho está a cumprir o seu dever; assim cumprisses tu os teus". - falou brandamente Albano.

"Ele já sabe que come a valer". - e deu a primeira fueirada no inocente canino.

"Já te disse que não bulas com o pobre animal". - prosseguiu Albano, agora mais azedo e surripiando-lhe o pau, que descia para novas agressões.

A verdade seja dita: o fiel guardião não gostava do moço que, a propósito de tudo e de nada, lhe fazia judiarias; por isso lhe rosnou, pêlo eriçado, ficando de pé, firme nas patas traseiras.

Despojado da arma de madeira, o agressor, com extraordináoia agilidade, meteu a mão ao bolso direito das calças; ouviu-se um estalido metálico e enterrou a longa e afiada lâmina de uma navalha de ponta e mola no esófago do possante acorrentado, que soltou um uivo estridente, espumou de raiva, esbugalhou os olhos, contorceu-se no chão com dores, gemeu, gemeu e expirou nos braços de Albano, que o levantou, na tentativa de o salvar...


Abril de 2006


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ALEIVOSIAS


O fidalgo da Casa Grande, quando a morte o levou, contava quarenta e poucos anos. Na juventude, galopando num soberbo cavalo de raça pura, (não entendia porquê, pois era um excelente cavaleiro), foi cuspido para o meio de um silvado, ferindo, com gravidade, o membro inferior direito, que teve de ser totalmente amputado. E a partir de então, sobretudo psicologicamente, nunca mais se sentiu bem.

Como primogénito da casa, tornou-se herdeiro de uma enorme fortuna.

Nasceram três filhos, dois rapazes e uma rapariga, que eram o enlevo do pai.

Nada lhes faltava, quer mimos, quer bem-estar.

Na altura em que o fidalgo faleceu, o menino mais novo tinha completado sete aninhos.

Ora, louvado seja Deus, decorridos nove meses exactos, a bonita fidalga, agora trintona, gerava mais um rapaz!

Bichanavam as más línguas que o menino era filho de um criado-capataz, que tinha a mesma idade da patroa, era um homem garboso e funcionou sempre como quase senhor de tudo...

Pobre como era, com tal casamento, passou a ser um bom proprietário.

Em lugar de tratar a mulher como uma fidalga, tratou-a sempre com altivez e humilhações e apenas lhe soube fazer filhos.

Quanto a ser pai do cunhado mais novo, só ele e a patroa eram detentores do segredo. Mas a verdade é que sempre se entendeu com ele como Deus com os anjos, ao invés do péssimo relacionamento com os outros dois, que não esqueceram o facto de ter seduzido e casado com a irmã e, pior ainda, os maus tratos com que a mimou até à morte, já que ela ainda por cá ficou por mais uma década de Primaveras...


Julho de 2007


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FRATERNIDADE E AMOR

(...) E agora, no cemitério, sempre que lhe era possível, comida pela saudade, visitava o irmão, desfolhando as pétalas de uma qualquel flor, na desbotada tampa de granito do velho e imponente jazigo, que remontava um século atrás, mandado ali colocar pelo visavô, que não conheceu, embora ele tivesse morrido octagenário.

Eram filhos de uma boa e abastada família rural, cristã e muito respeitada pela vizinhança e aldeias limítrofes.

Os pais há muito que já tinham falecido.

Ele, primeiro filho varão, era senhor dos terços dos avultados haveres. A irmã, dois anos mais velha, não casou e sempre dirigiu toda a parte doméstica da grande casa de lavoura. Dedicou a sua vida ao serviço de Deus e da igreja, tendo sido componente das associações paroquiais e dedicada catequista desde os quinze anos de idade.

Era bem parecida, cumpridora e tão apegada a tudo o que à religião dissesse respeito, que se dizia, à boca cheia, tratar-se de um modelo de santidade e exemplo de castidade a ser seguido. Entendia-se às mil maravilhas com a cunhada e ajudara a criar os filhos do casal, aos quais queria como se fosse mãe...

As aparências, todavia, inúmeras vezes, iludem: Desde criança que mantivera uma secreta relação amorosa e sexual com o irmão.

Jamais alguém desconfiou, porque tudo era natural aos olhos de quem com eles convivia. No entanto, no percurso de perto de cinco dúzias de anos a intimidade incestuosa foi bem acautelada e passou despercebida...

Ele fez o serviço militar obrigatório e aos 25 anos casou com uma rapariga simples, muito dedicada a ele e aos sete filhos que gerou, tendo sobrevivido quatro, que receberam educação esmerada e exemplar.

Na vida conjugal, aparentemente, foram sempre muito felizes.

Ele foi sempre um excelente trabalhador, nunca se recusando a fazer fosse o que fosse, essencialmente em tarefas agrícolas, na sua extensa e bem produtiva quinta.

Ao longo dos setenta anos de existência praticou o bem que pôde. Militou nas associações, colectividades e confrarias da paróquia, ocupando todos os cargos de dircção previstos estatutariamente.

Pautava-se por uma invejável postura, sendo um bom homem, respeitador e respeitado, amigo de fazer bem, largamente acarinhado por todos e sensível a tudo o que o rodeava.

Foi sempre muito equilibrado no percurso do viver, quer na alimentação, nas bebidas, nas decisões que tomava, procurando ser justo, quer mesmo nas diversões, nutrindo um fraquinho por arraiais e cerimónias de cariz religioso.

Retirando algumas constipações e leves gripes gozou sempre de óptima saúde e disposição. Cerca dos 69 anos, porém, começou a sentir-se indisposto, com dores, urinando amiudadas vezes e, algumas, sangue. Após breves exames clínicos detectaram-lhe um cancro na próstata e já não se justificava uma intervenção cirúrgica.

Aceitou a sentença com pura resignação cristã e apenas viveu mais uns cinco meses.

Uma semana decorrida sobre o seu septuagésimo aniversário, num treze de Maio, data que ele comemorava fervorosamente, pelo grande amor que dedicava à santíssima Mãe de Deus, sem um queixume e sem um ai partiu para a última Morada, com a firme esperança de que o aguardava um glorioso Reino de bem-estar, paz e justiça...

Familiares, amigos e conhecidos foram muitos no velório.

Pela meia-noite, extenuada, a irmã recolheu ao quarto. Sentia-se imensamente debilitada. As emoções tinham sido excessivas. Quis dormir um pouco. Aguardou largo espaço e não conseguiu. Turbilhões de imagens e de pensamentos não lhe libertavam o cérebro.

Era já madrugada alta quando pressentiu que todos tinham partido, vencidos pela fadiga e pelo sono. No silêncio, tremente e enfraquecida, percorreu a longa distância que a separava da salinha do oratório.

Devagar, empurrou a porta, entrou e encostou-a de novo. A lamparina de azeite e duas velas de estearina iluminavam, tenuemente, o compartimento.

Meditou, rezou, gemeu baixinho, sempre com os olhos fixos naquele corpo imobilizado.

Depois, volvidas umas duas horas, quando os primeiros raios de luz espreitavam pelas frinchas da janela, abeirou-se da cabeceira da urna, verteu algumas grossas lágrimas, inclinou-se sobre o rosto pálido e gélido e nele depositou o derradeiro beijo de fraternidade e de amor...


Setembro de 2008


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