Aquele pequenito foi forçado
a ir à guerra,
a fim de combater, como soldado,
p'la sua terra!
A tenra idade
não lhe permitia
a arma manejar.
Por
isso, à frente, com aprumo, ele ia
o tambor a rufar!
Vezes sem-fim
se repetiu a cena:
Na dianteira,
a figura franzina, mas serena,
era bandeira...
Certa manhã,
de raios colorida,
no seu posto, a rigor,
injusta bala recebeu, perdida,
o frágil tocador!
Julho de 2000
Ao longe, soltam os sinos,
uns repenicados hinos,
lembrando que é meio-dia:
o que for
crente e se preza,
ceio de respeito, reza,
recolhido, "ave-Maria"!
Depois, à
noite, na torre,
quando o sol, cansado, morre,
arrastando as claridades:
outra vez há badaladas,
aspersas em revoadas,
e também reza à “Trindades”…
Fevereiro de 2000
Ao Padre António Rodrigues
Era bem tempo de apagar o círio,
que alumia há anos o martírio,
que me faz dele escravo permanente:
Tem sido um curso íngreme, enfadonho,
repleto de um inacabado sonho,
que só quem sofre de tais males sente...
Volto a gostar
um pouco mais da vida
e a ter mais incentivos na subida,
que, receoso, aos poucos, vou subindo:
Prossigo a tropeçar, vezes sem conta,
em precipícios de pequena monta
que, inesperadamente, vão surgindo...
Preciso
recompor-me do abalo
e de múltiplas culpas que 'inda calo,
embora, consciente, a defini-las:
Medito, remedito e fico tonto,
sem poder atingir aquele ponto
de as avivar, revê-las e sumi-las...
Se um dia for
capaz de ultrapassar
a encruzilhada que me faz penar
e retira momentos de sossego:
Então, sim, poderei erguer um canto,
que, eternamente, leve a dor, o pranto
e as cruas incertezas que carrego...
Setembro de 2003
Ao Dr. Alípio da Silva Lima
Já não se reza o terço, como outrora,
nos pacíficos lares das aldeias,
repletos do luar vindo de fora,
ou sorvendo a luz frouxa das candeias!
Pelo Inverno,
à volta da lareira,
desfiavam‑se as contas com piedade,
ante o crepitar rubro da fogueira
e a resposta dos outros, com bondade...
Era ao ar
livre, às vezes, no Verão,
a rematar as lides e canseiras,
erguendo aos Céus a límpida oração
por cometidas faltas, passageiras...
Lembravam‑se
os parentes, benfeitores,
amigos e até mesmo os inimigos,
e rendiam‑se múltiplos louvores,
para serem libertos dos perigos...
Também se
orava pelos falecidos,
quer aos convivas pertencendo ou não,
para que Deus ouvisse os seus pedidos
e concedesse o divinal perdão...
Era pedida a
bênção dos mais velhos,
ao terminar a devotada reza,
tendo‑se em conta sempre os bons conselhos,
vindos da dignidade que se preza...
Que pena não
haver já nas aldeias
o desfiar das contas em família,
a rogar se evitassem as mãos‑cheias
do terror, da agressão e da quezília...
Mas tudo
terminou sem regressar,
porque julgam as novas gerações
sumir‑se‑lhes o tempo p.ra gastar
no vício, malfazer e diversões!
Outubro de 2003
Jamais compreendi qual a razão
dele tomar aquela decisão,
pois sempre o rotulei de equilibrado,
inteligente, amigo, responsável
e senhor de esmerada educação!
Não me passou p.la mente o outro lado,
que veio a ter um termo irreparável,
atendendo a
que foi arrebatado
por um golpe brutal da fera Sorte,
que lhe aferiu imerecida Morte...
Soube depois
que fôra a depressão
a causadora da situação
que, a pouco e pouco, o pôs assim frustrado
e proporcionou ser inviável
vir a alcançar uma libertação...
Não tinha dúvidas de estar minado
por doença malévola, incurável,
a que estaria sempre escravizado
e lhe não retirava a ânsia forte
de, com a Vida, concluir o corte...
A epilepsia
combateu, em vão,
até, por fim, sentir‑se derrotado,
ante o garrote rígido, implacável
do algoz que lhe toldava o Sul e o Norte...!
Novembro de 2003
À Maria do Sameiro Miranda
Era tão pobre, tão pobre,
que na noite de Natal
não lhe sobejava um cobre
para ter o essencial:
umas couves e batatas,
grandes riquezas, baratas...
Se existisse um gesto nobre
remediaria o mal
e teria a desejada
santa e feliz Consoada!
A noite ia
decorrendo
e as brasas também morrendo
na reduzida lareira,
sopradas por manso vento,
que unia o triste lamento
em visita passageira...
E tremenda lassidão
lhe oprimia o coração
e vedava toda a esteira...
Com o borralho
a esvair‑se
e sem luzir a candeia,
começou mais a sentir‑se
angustiado p.la ceia,
que já não ia servir‑se
e lhe não largava a ideia...
O sono trouxe‑lhe um sonho
delicioso e risonho:
Em
deslumbrante mansão,
como nunca vira assim,
pejada de multidão
e cercada por jardim,
achou lauta refeição
de sortidas iguarias
e efusivas alegrias...
Toalha branca
de linho,
com manjares de dar graças,
cobrindo a mesa de pinho:
filhós, pinhões, uvas passas,
aletria, pão‑de‑ló,
licores servidos só
em puro cristal das taças!
E formigos,
rabanadas,
maçãs a assar na braseira,
bolo‑rei, cristalizadas
frutas, diversificadas,
e crepitante fogueira!
Pinheirinho iluminado
e um presépio imenso e lindo,
onde, nas palhas, deitado,
'stava o Menino sorrindo!
A
confraternização
gozou de fio a pavio,
até o dia raiar...
Regressou a
solidão,
'inda o 'stômago vazio
e mais gelo ao
despertar...!
Outono de 2003
Ao Arlindo Fagundes
Já gozei felizes dias,
noutros tempos
que lá vão,
plenos de sãs alegrias...
Foram, de
facto, momentos,
que tanto prazer me dão,
quando tenho desalentos...
Aos sete anos
fui à escola
e ainda me lembro bem
que levei uma sacola
já usada por alguém!
Não importava,
contudo,
porque o que mais desejava,
como aplicado miúdo,
era a sorte no estudo,
sorvendo o que se ensinava...
E fui
crescendo em idade,
e também na inteligência,
tendo em conta que a bondade
era a minha preferência:
Mas hoje também o é
sem dela arredar o pé...
Era um ditoso
menino,
por desvelos cumulado,
qual florinha de jardim,
até que um dia, o Destino,
impiedoso, inesperado,
se derrubou sobre mim
e me tornou desgraçado...
Imerso nessa
desgraça
sofri um ciclo cruel,
forçado a beber à taça
milhões de goles de fel,
até me ser dada a graça
de chupar favos de mel,
quando larguei o monturo,
começando um viver puro...
Convenci‑me que era útil
e o
Passado fôra fútil,
com vontade de O olvidar:
Acenderam no carreiro
um cristalino luzeiro
para os passos me guiar...
Constatei não ser vedado
atingir o resultado,
que me esforcei por achar!
Por isso,
caminho em frente,
a mostrar a muita gente
que quero sossego e paz:
De novo sinto a pujança
doutros tempos de criança
e não voltarei atrás...
Ergo a Deus uma oração,
num brado sentido e forte:
"Sede a minha protecção
e guiai‑me até à Morte!"
Outono de 2003
Ao Prof. Doutor José Augusto
Pacheco e esposa
Durante a vida
fôra pescador,
por isso, ao mar,
consagrava sentido e grande amor,
sendo impossível suceder um dia,
sem comungar
profunda nostalgia!
A íngrime
calçada,
fronteira ao mar,
estava bem coçada
de tanto a palmilhar:
Desembocava
num extenso largo,
delimitado
por um grosso e maciço paredão,
onde se debruçava, extasiado,
ou com um pensamento bem amargo,
que se esvaía pela imensidão...
Por longe
andou inumeráveis vezes,
semanas, noites, dias,
e até mesmo chegaram a ser meses,
com fundas esperanças,
medonhas tempestades, ventanias
e subtis horas mansas...
Viu‑se
envolvido
na doce calma
e no tufão:
e, recolhido,
encomendava a alma
em íntima oração...
Sob noites de
luar,
em que as águas eram prata,
gostava de interpretar
comovida serenata!
E, sem enfado,
repetia
tantas estrofes inventadas
de canções velhas, decoradas
de um terno álbum de poesia...
Trovas para a
mulher,
por quem lhe arfava o peito,
eram longas amostras de querer,
de saudade, amor, pranto, enleio e preito!
Embora
alimentasse diversas paixões,
nunca casara:
Ser pai de muitos filhos eram ilusões
com que sonhara,
mas que jamais
concretizara...
Sob o balanço
das ondas,
em marés de calmaria,
desfilava em largas rondas,
repletas de fantasia:
Via na espuma
a brilhar
um delicioso leito,
para ficar, peito a peito,
com a que o quisesse amar.
Tudo, porém, sempre em vão,
porque a mais forte paixão
era dedicada ao mar!
O pai tinha
morrido nas salgadas águas,
havia vários anos.
A família sofreu indescritíveis mágoas
e irreparáveis danos:
Mesmo assim, todavia,
sempre achava nas águas
momentos de alegria...
Malgrado muita
vez a adversidade
o tenha visitado
nas lides piscatórias,
eram doces instantes de saudade
as ímpares histórias
e memórias
do Passado...
Lembrava tudo
agora,
embevecido,
e um longo olhar sulcava p'lo mar fora,
enternecido!
O avô também fôra
um lobo do mar,
por isso é que mora
na profundidade,
que uma tempestade
o fez naufragar...
O corpo do pai
ainda apar'ceu,
mas o do avô, ai!,
o mar o comeu!
Imensos
presságios
sobre ele desceram
em tantos naufrágios
que lhe sucederam.
Mas em suma:
em conta tendo a ruma
de trágicos cadilhos,
havidos e legados pelo mar,
se lhe nascessem filhos
seria a mesma sorte que iriam herdar,
para manter‑se
a chama sempre acesa,
que há muito iluminava,
com dotes de nobreza,
os membros da família, de coragem brava!...
O mar e sempre
o mar,
na mente a fervilhar!
Lençóis de
puro linho,
enormes, estendidos,
tapetes do caminho
que havia a percorrer;
regalo dos sentidos,
suave amanhecer...
O sol a
despontar,
chamando p'rò labor,
por tudo a derramar
delícias de fulgor.
E o barco,
persistente,
desliza, mansamente...
Em todas as
rotas,
bandos de gaivotas
fazem companhia:
Adornam o ar
e tanto piar
exprime alegria!
Mas quando o
mar estava mesmo bravo,
redobrava a atenção pelo perigo,
porque não se podia ser escravo
do falso amigo,
raivoso, a
arfar:
feroz, bramindo,
tudo investindo
para os tragar...
Quando eram
lançadas
as redes ao mar
e vinham pejadas
de peixe a saltar,
infinda
alegria,
com rezas e cantos,
à Virgem Maria
e filho Jesus,
que dão a ventura
de tanta fartura
e secam os prantos
nas ocasiões
que o mar só produz
as desilusões...
Quando as
redes vinham cheias
de espécimes variadas,
faziam‑se
lautas ceias
de gostosas caldeiradas,
com umas pingas regadas
e as estrelas por candeias...
E depois lá
vinha a farra,
com canções, um belo fado,
com primor acompanhado
pelo trinar da guitarra
que, por magia, os amarra
ao evento inolvidado...
Mas para ele,
o mar
era sempre beleza,
no terno marulhar
e na rude aspereza.
Embora
apreciasse bem mais a bonança,
que em tudo lhe trazia raios de esperança,
deslumbrava‑o
também a medonha procela,
onde podia ver inimitável tela!
E sempre,
sempre o mar,
em todos os momentos,
com o melhor lugar
nos longos pensamentos!
Também na hora
alegre ou inquieta,
glosando qualquer tema do Universo,
sentia‑se na pele de um Poeta,
compondo e declamando subtil verso.
Para qualquer
assunto fazia um esquema
e consagrava tempo nele a trabalhar:
Sem querer, o tema
visava sempre o mar...
Num leve
sorriso,
depois declamava,
ou então cantava,
como este improviso:
"Ó mar, ai, ó
mar,
suave e bendito,
tapete infinito
de espuma a brilhar!
Ó mar, ai, ó mar,
rebelde e maldito,
que esqueces o grito
de quem naufragar!
"Ó mar, ai, ó
mar,
amigo e traidor,
mas que o pescador
sempre há‑de lembrar,
pois é só amor
que tem para dar!
"Ó mar, ai, ó mar,
das grandes tormentas:
agora, és de amar,
logo, desalentas!
Revoltas que inventas,
em qualquer lugar;
espumas que ensaias,
de dia, ao luar,
com bailes nas praias
de rara
brancura:
Só mesmo quem te ama
mantém viva a chama
de eterna doçura...
E sobre o
paredão,
o velho tecelão
de espuma inigualável
fazia fina malha
p'rà confecção de afável
e límpida mortalha!
E o mar gemia,
serenamente,
porque perdia
um bom cliente,
que a vida lhe doou
e os males perdoou,
e o conhecia
como ninguém,
ou como poucos:
No dia‑a‑dia
viveu com loucos
e com alguém
que partilhava
da mesma opinião.
Não se ralava
com o quinhão
que usufruísse
um companheiro:
Não era useiro
do disse‑disse...
Eis a razão
da consideração
que nunca lhe
negaram,
e até o premiaram
por tal
desprendimento,
pois bem reconheciam
que nos outros não viam
tão belo sentimento...
Pensava muito
na sorte,
n'alegria e n'amargura:
Possuir, após a morte,
o mar como
sepultura...
Para o
castigar,
ou recompensar,
não teve bondade,
também desta vez,
o imprevisto mar,
porque lhe não fez
tamanha vontade...
Em uma certa
noite, regelada,
coberto de luar,
já fim d'Outono,
de bruços, sobre as pedras da calçada,
ficou a repousar
no derradeiro sono!...
Outono de 2003
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Ao Padre João Alves de Oliveira
Canta, lindo passarinho,
um canto de enfeitiçar,
em trilados, de mansinho,
que tudo faça alegrar!
Ai saudoso
rouxinol
que nas noites de luar,
até ao nascer do sol
não paravas de trinar!
É noite,
escutam‑se os ralos,
vão nascer milhões de estrelas;
de manhã, cantam os galos
e o Sol pinta imensas telas!
Seria bom,
quem me dera,
ser sempre moço e contente,
como a fresca Primavera
tão colorida e ridente!
Deixai cantar
a cigarra,
que é o que sabe bem fazer:
desde que lhe cheire a farra,
outra vida já não quer!
A previdente
formiga
aproveita o dia inteiro,
sem nunca sentir fadiga
de acarretar p.rw celeiro!
Tamborilas,
mansamente,
ó chuva, sobre o telhado
e o espírito, dormente,
repousa, deliciado!
Improvisava
tão bem
o pequeno mandrião,
a ver se lhe dava alguém
qualquer coisa para a mão...
Ó Sol forte e
deslumbrante
inunda‑me o coração
com um banho fulgurante,
repleto de mansidão!
Rios que
cantarolais,
em busca do largo mar:
levai lágrimas e ais
de quem está a penar!
Ventos todos
que passais
fazei‑me um favor apenas:
vede se me transportais
para muito longe as penas!
Avezinha
canta, canta,
que bem gosto de escutar:
quem me dera uma garganta
que te pudesse imitar!
Ó cintilantes
estrelas,
que iluminais Céus e Terra:
destruí‑me as sequelas,
herdadas de injusta guerra!
Sei bem que é
triste o fadário,
por .star preso na gaiola,
daquele belo canário,
que em gorjeios me consola!
Lua pura, véu
da noite,
derrama bento luar,
num local onde me acoite
e passe o tempo a sonhar...
Se possível,
Natureza,
até ao fim dos meus dias,
leva o manto da tristeza
e traz outro d'alegrias...
(Que se venera no monte do mesmo nome,
da freguesia de Espinho, Braga)
Ao padre Artur
V. Marques
A Senhora do
Sameiro,
dda freguesia de Espinho:
de Braga, belo roteiro
para quem visita o Minho.
A Senhora do
Sameiro
habita linda basílica,
num lugar bem altaneiro
e de paisagem idílica!
A Senhora do
Sameiro
está no topo de um monte
e o devotado romeiro
busca a paz da Sua fronte!
A Senhora do
Sameiro
numa imagem primorosa:
as mãos hábeis de um canteiro
lavraram tão linda rosa!
A Senhora do
Sameiro
por tudo derrama luz:
é o foco mensageiro
do amado filho Jesus!
A Senhora do
Sameiro
larga fitas pelo ar,
que caem no mundo inteiro,
como mãos a abençoar!
A Senhora do
Sameiro,
envolta em brilhante manto,
onde o crente forasteiro
seca as lágrimas do pranto...
A Senhora do
Sameiro
no mavioso sorriso
tem estampado o letreiro,
que nos mostra o Paraíso!
A Senhora do
Sameiro,
terna e santa Mãe de Deus,
é referente luzeiro,
que nos guia para os Céus!
A Senhora do
Sameiro
tem piedoso coração:
no momento derradeiro
seja a nossa protecção!
18 de Janeiro de 2004
Ao Jorge Emanuel Pedrosa
Ao Manuel José Miranda
Esmorecido, triste e infeliz, me pus
que de cruéis
espinhos foram povoados,
depois de há longos anos ter perdido a luz!
Então, aos
ombros carreguei aquela Cruz,
que não julgava ser de troncos tão pesados,
nem de grandes martírios diversificados,
que unicamente os conseguiu sofrer Jesus...
Por mais
voltas que desse não achei a forma
de, alguma vez, poder modificar a norma
da Sorte que me foi, ao nascer, cometida:
Também me
deram para as mãos um lampadário
(mas só de
escuridão), o meu cruel Fadário
e Estrela-guia na constelação da Vida!
29 de Janeiro de 2002
São amargas as contas do rosário
que desfio no curso do viver:
vacilo, sob o peso do sofrer,
embora não me espere outro Fadário!
É tortuoso e
longo o meu Calvário
e o cimo creio que não vou vencer,
porque a força e vontade de querer
se têm transformado em adversário...
Desanimo,
lutando p'ra alcançar
a meta desde há muito definida:
mas sem um braço amigo a me amparar
e calma p'ra
que possa discernir,
não passarei do meio da subida,
com corpo e ânimo a genuflectir...
30 de Janeiro de 2002
Se agora me levanto, caio além:
tanta vez vergo ao peso da desgraça,
bebendo até ao fim o fel da taça
que, a cada instante, vai enchendo alguém!
Uma agonia
enorme que me vem
do íntimo do
ser e me perpassa
e que deixa vincada uma ameaça
de que acabar não pode tudo em bem...
Escoa-se-me a
Vida, gota a gota,
na íngreme subida do Calvário,
a desfiar as contas do rosário,
que recomeço e
findo cada dia:
dezena após dezena, sigo a rota
da pouquíssima Fé, que 'inda me guia!
30 de Janeiro de 2002
Escrevo num dos trágicos momentos
em que bem desejava não viver,
ou ter a sorte de desapar'cer
nas asas de irrecuperáveis ventos!
Desgostos caem
sobre mim aos centos
e eu tenho tido a força p'ra esconder
as lágrimas e dores do sofrer,
assim como os macabros pensamentos...
Ais e gemidos
brotam-me do peito,
no meio da revolta e da aflição,
porque, aos poucos, começo a ver desfeito
o meu sonho de
vida, esse quinhão,
que só a mim pertence por direito,
pois fui amealhando grão a grão!
31 de Janeiro de 2002
Por toda a parte
procurei carinhos,
que me pudessem retirar da mente
o duro sofrimento do Presente,
constituído por cruéis espinhos,
que me infestaram
todos os caminhos,
onde eu tinha uma rota permanente...
Tornei-me, assim, num fraco e impotente,
incapaz de zelar meus pergaminhos...
Mas nunca desisti
de procurá-los,
com a esperança de poder achá-los
nas variadas incursões que fiz:
Contudo, sempre
alguém mos tem negado
e eu sinto cada vez mais afastado
o sonho de voltar a ser feliz!
31 de Janeiro de 2002