Aos meus três filhos
Sois as
quatro jóias belas
do meu
"Cofre de Ternuras":
vou ter
cuidado com elas
e mantê-las
sempre puras!
Um dia, num
Outubro já distante,
segredei‑te,
sorrindo, confiante:
- Unidos, à
procura da bonança,
Vamos, Amor, na
"Barca de Esperança"?!
As velas
desfraldámos, de mãos dadas,
contrariando as
ondas alteradas,
em busca de um
seguro porto amigo,
que fosse, vida
fora, o nosso abrigo...
Tomaste o leme,
firme, e decidimos
na vida não
vogar ao Deus‑dará,
mas sermos um do
outro o forte arrimo
nas lutas que o
Destino nos trará...
E muitas têm
sido as arrelias!
E tantas têm
sido as alegrias!:
As primeiras
tentamos afastá-las;
contudo, as
outras, faz‑nos bem lembrá-las
com cânticos
solenes de aleluias...
Ao fazer o
balanço do Passado
bendigo a
ventura
de ter-te
encontrado,
pois me
trouxeste a alegria
e a desejada
ternura,
que em meu peito
não havia...
Tu és, com
nossos filhos, o mais doce enleio
e ter-vos junto
a mim é sempre o grande anseio...
Bendito, pois,
seja Deus,
por me ter dado
o ensejo
de unir num
único beijo
os quatro tesouros meus!...
(Desaparecido em 1/2/90)
Como é que
hei‑de exprimir, querido Pai,
o que, nesta
hora amarga, de pranto,
em minh'alma
contrita e pobre vai?
Apenas afirmar,
sincero, o quanto
significaste
para mim na vida:
Sou sangue do
teu sangue. Sou semente
do teu amor e
incansável lida.
'Stou triste, pois p'ra sempre estás ausente.
Todavia, meu
Pai, p'ra sempre não,
que existe uma
certeza que me guia
e eu acredito na
Ressurreição:
Por isso, em paz
descansa até ao dia
em que me terás
junto ao coração
num infinito
abraço de alegria!
Se a gente
sempre tiver
saúde, paz e
amor,
suceda o que
suceder,
não há que
sentir temor,
já que a Vida só
é bela
quando soubermos
vivê‑la!
Se a doença,
todavia,
a saúde vem
roubar;
se a atroz
guerra, que arrepia,
a santa paz vem
toldar;
e se o ódio, que
é rancor,
retira a vez ao
amor:
A Vida não será
bela,
nem vale a pena
vivê‑la!
Oiço o sussurro
da fonte
que, levemente,
desliza,
a pedir‑me que
não conte,
nem ao vento,
nem à brisa,
o delicado
segredo
de uns jovens
que se encontraram
e felizes, muito
a medo,
um par de beijos
trocaram...
A mim não se
retraiu
de contar, bem
sorridente,
a terna cena que
viu,
porque eu sempre
fui cliente
da sua água
fresca e pura.
Ao vento e
brisa, porém,
rogou‑me p'ra
não contar,
não fossem ter a
loucura
de o revelarem a
alguém
no constante
cirandar!
Procelas do
Oceano,
por que sufocais
o grito,
com vosso poder
tirano,
a tanto náufrago
aflito?
O abundante e
largo mar
ao ousado
pescador,
que de noite e
dia lida,
lhe dá o pão a
ganhar,
pedindo, como
penhor,
a oferta da sua
vida.
Nada, afinal,
dás em troca,
ó mar salgado e
profundo,
já que deixas
muita boca
esfomeada no
mundo!
...Dás a tantos
o sustento,
mas lhes roubas
o alento!
Adormeceu o
pequeno
e de noite a mãe
foi ver
se dormia
sossegado:
Sim, ressonava,
sereno,
e p'lo rosto
iluminado
lindo sonho
estava a ter...
A mãe baixou‑se,
feliz,
nada mais vendo
em redor,
e nos lábios do
petiz
poisou um beijo
de amor!
Tão jovem que
era e já se aproximava
a hora
ambicionada de ser mãe:
Desde há muito
que estava convencida
das dores que
haveria a suportar
ao rasgar‑lhe as
entranhas e gerar
o fruto mais
querido em sua vida.
Ele encerrava
tantos bons momentos
vividos,
dia-a-dia, com aquele
que a seduzira e
prometera amor:
Foi sem reservas
que se deu, contente,
pois sentia‑se
presa na corrente,
que era tecida
pelo seu ardor...
E assim passou
um ano de conforto:
Ele era amável,
terno, dedicado,
até ao
dia em que ela revelou,
num êxtase,
feliz, uma certeza,
que par'ceu
apanhá‑lo de surpresa
e um azedume
forte o transtornou...
Todavia,
esquecera aquele transe
e começou a amá‑lo
duplamente,
na convicção de
que viriam dias
mais calmos,
mais alegres, e a ventura
de reaver os
tempos de ternura,
enterrando
sentidas agonias...
Ali tinha nos
braços, frágil, meigo,
o resultado do
seu louco amor.
Abriu os olhos,
tonta, e procurou
o companheiro, o
pai do novo ser.
E não o viu.
Contudo, não quis crer
e por mais tempo
ainda o esperou...
Resignou‑se, mas
sentiu no seu mais íntimo,
por instantes,
um ódio pelos dois...
Depois, reagiu:
Ao peito aconchegou,
num frémito, o
bálsamo p'rà dor
que a alucinava
e, cheia de vigor,
decidiu esquecer
quem a enganou...
Por mais que
queira esquecer
Não me abandona
a lembrança,
dos momentos de
prazer
vividos quando
criança...
Quem me dera
hoje poder
gozar a feliz
bonança
daquele antigo
viver,
onde tudo era
esperança!
Há muito, num
Janeiro, foi a vida
que das
entranhas me chegou (daquela
mulher feliz,
embora dolorida)
e me disseram
que seguisse a estrela
que me foi, por
sorteio, cometida
No céu, a
cintilar, achei‑a bela
e nunca
imaginei a atroz ferida
que, apenas com
nove anos, herdei dela!
Com essa tenra
idade não se sente
que o caminho
que se há‑de percorrer
pejado está de
fraca e má semente.
Por isso, ao
retirar‑me a luz dos olhos,
o que tenho na
vida de vencer
é a praga ‑ que
fim não tem ‑ de abrolhos...
Numa noite
pejada de milhões de estrelas
um filho
perguntou se eu não queria vê-las!
Ele, porém,
sabia que há muito em meus olhos,
em vez de luz,
reinava uma nuvem de escolhos...
Aquela frase
simples tocou‑me bem fundo:
Que me
interessam as belezas que há no mundo,
se os tesouros
queridos, que me dão prazer,
na dor que me
tortura, jamais posso ver?
E só Deus sabe o
quanto adoro esse pedaço
de carne, e
sangue, e vida, que beijo e que abraço:
Três filhos e a
mãe são quatro jóias raras
e pelo preço do
amor me são tão caras!!
Faz tanto frio e
nunca mais cai neve...
É pena que não
caia neste dia,
tornando tudo
num tapete leve...
Leve e macio,
para ser moldado,
repletos de
alegria,
em tantas coisas
lindas pelas nossas mãos...
Assim, não
haveria coração
que não deixasse
de ficar maravilhado,
ao vê‑la tombar,
branca, como a
farinha, de mansinho,
que cai ao
deslizar
a mó do
moinho...
Ou como
farrapos,
de tamanhos
variados,
formando uma
longa manta
de tecidos
retalhados
que, por ser
feita de trapos,
a todos
encanta...
Ou ainda a
recordar
a nuvem alva,
que desce
da sacudida
peneira,
que rica broa
vai dar
a todo o ser que
carece
de saciar tanta
fome,
que na terra é
grande herdeira
e a Humanidade
consome...
Mau grado tanto
frio e desejada
a neve não quer
cair
para, repletos
de alegria, ser moldada
por tantos
pequeninos, a sorrir...
Do céu cinzento
grandes flocos caem,
formando
extenso manto de brancura:
Aos gritos,
doidos de alegria, dizem
os meus meninos,
rindo, com ternura:
"Ó pai!, há
tanta neve p'ra brincar
e há muito
tempo já que não caía
assim uma tão
grande quantidade...
Por isso, vamos
ter que aproveitar
o gozo que nos
traz tão lindo dia..."
Sopra tão triste
o vento do Outono,
gemendo ao
percorrer o campo, o monte,
qual cão vadio,
que não tem um dono,
qual veia de
água em busca de uma fonte!
As árvores
desnuda nas passagens
que efectua, sem
dó, cada momento,
quais mãos
erguidas de forçadas virgens
que,
inconsoláveis, carpem o evento!
Ulula nos
ciprestes; faz tombar
os troncos,
ramos, frutos, folhas, flores;
reaviva, nos
enfermos, ténues dores;
regela quem
habita um pobre lar;
chora com
tantos, na 'stação da morte;
mas, de tudo e
de todos, ri da sorte...
No começo de
Novembro
procura‑se
visitar
o lugar onde
repousam
tantos entes
adorados...
E nos olhos,
lacrimosos,
de inesquecível
saudade,
sente‑se o luto
e a dor
patenteados no
rosto...
Consoante a sua
crença,
todos se
reverenciam
e meditam,
recolhidos,
no mistério do
Além...
E é no meio do
Outono
(estação que
representa
a morte da
Natureza),
que se celebra
tal data...
Ontem foi tudo
alegria,
honrando todos
os santos,
os membros da
geração
que procuram o
Senhor!
Hoje é o
recolhimento
de quantos
choram os seus
com a alma
angustiada...
Saudade,
lembranças caras,
rogos p'ra que
haja perdão
pelas faltas
cometidas.
Interrogação,
temor
pelo Juízo
Final.
Meditação bem
profunda
no modo como
virá,
um dia, a Morte
também...
Uma súplica
sincera.
Uma oração atrás
de outra...
Os votos,
pedindo a Deus,
com ardente
devoção,
e as lágrimas a
brilhar
nos tristes
olhos, pisados,
que os seus
entes, que partiram
para a última
morada,
descansem em
paz. Amém!
É tão bom
chegar‑se ao fim
de um projecto
concebido!
Propomo‑nos
realizar
tarefas após
tarefas,
que vamos
delineando.
E bem
esquematizadas,
ensaiadas
muitas vezes
e, quando nos
convencemos
que estão
amadurecidas,
brotam de nós e
o seu êxito
é causa de
inexplicável
prazer e grande
alegria!
A sensação que
nos fica
de sabermos ter
cumprido
com o melhor de
nós mesmos
paga, com juros
bem altos,
o enorme esforço
aplicado...
Na Bouça tudo se
ouvia:
Por noites enluaradas,
ao longe, a doce
harmonia
saída das ramalhadas
dos choupos e
dos salgueiros,
que habitam, lá
bem ao fundo,
assim como os
amieiros,
o valezinho,
fecundo...
É banhado p'lo
ribeiro
(o Fêveras, bem
pequeno),
que para o Ave,
ligeiro,
ali desliza
sereno!
Na Tojeira
alimentou
um engenho de
serrar,
há tempos, que
eu não estou
seguro p'ra
precisar.
Mas do que me
lembro bem,
já que lá me
diverti,
é da existência
também
de um lagar de
azeite ali!
Mais abaixo é
represado
para tocar os
moinhos,
abundantes no
passado,
que deram
tantos carinhos
às fomes que
reclamavam
a farinha
desejada
p'ràs broas,
que saciavam
tanta miséria
espalhada...
Precipita‑se, em
seguida,
na passagem
p'los Moleiros
e é uma via
reduzida
quando
atravessa Briteiros.
Pouco adiante,
por fim,
no Ave vai
terminar:
É tão grato para
mim
sobre o meu Rio
falar!
Derrubaram o
velho castanheiro
que,
indiferente, a idade não sabia,
bem junto e
confidente do caleiro,
de tosca pedra
feito, que servia
de ponte no
caminho do lugar
que foi meu
berço e gosto de lembrar...
Carcomido,
entroncado, ia servindo
de poleiro às
crianças, que o trepavam
com ligeireza e
dos perigos rindo!
As candeias e
folhas lhe tiravam,
para simples
brinquedos construir
e com eles,
então, se divertir...
Também, com
alegria, fui herdeiro
de tantas
diversões no castanheiro!
Aquele pinheiro
manso,
nascido no
descampado,
de lembrá‑lo não
me canso
em cada Natal
que passa:
Bastante alto e
entroncado,
com ramos da c'roa ao chão,
que lhe davam
tanta graça
naquela imensa
verdura
perdida na
solidão
da deslumbrante
planura...
Ouvi que já não
existe.
Há tempos que o
derrubaram:
Ao sabê‑lo
fiquei triste
e senti grande
saudade,
porque com ele
levaram
recordações bem
queridas
da minha tão
tenra idade...
Tanta vez que
lá colhi
as pinhas
apetecidas
dos Natais que
não 'squeci!
Aproveitava o
pinhão
para comer,
claro está,
no jogo do
par‑pernão,
do rapa,
cartas, enfim
em múltiplos
jogos que há
e a noite
tornam pequena:
Mas o que
renasce em mim
é o rescender
da resina,
que inunda a
noite serena
e a faz suave e
divina!
É de todo o
coração
que a todos
quantos laboram
na Vida (que é
grande messe)
que as
palavras, que lerão,
e com muito
gosto foram
escritas para
este dia,
dedico, fazendo
a prece
ao Menino de
Belém,
que a todos dê
alegria,
saúde, paz,
muito amor,
e que neste ano
ninguém
deixe de ter o
calor
do bem‑estar, em
geral,
e um santo e
feliz Natal!
Boas‑festas
vimos dar
a quem nesta
casa mora
e também os
Reis cantar,
pois nasceu o
Deus‑Menino,
da Virgem Nossa
Senhora,
cheio de poder
divino!
os três Reis
Magos vieram
o Deus‑Menino
adorar
e ricas prendas
trouxeram
para a Seus pés
colocar.
Do Oriente
partiram
a ver o Filho e
a Mãe
e uma estrela
seguiram,
que os conduziu
a Belém.
A Santa Virgem
lavava
os trapos da
Criancinha,
que sobre as
palhas chorava
com tanto frio
que tinha.
Por ver que
tanto chorava
S. José n'Ele
pegou:
nos braços o
embalava
e o Menino
sossegou.
Muitos pastores,
com fé,
exultaram de
alegria,
em louvor de S.
José,
Jesus-Menino e
Maria.
E coros de
anjos, no céu,
entoavam, com
fervor,
hinos ao Rei,
que nasceu,
tão pobre, só
por amor.
Agora, p'ra
despedida,
votos vamos
formular:
Felicidades na
vida
e santa paz
neste lar.
Com alegria e
ternura
prometemos cá
voltar,
se tivermos a
ventura
de ao novo ano
chegar.
A neve cai de
mansinho,
põe tudo da sua
cor:
Não se conhece o
caminho,
a brilhar de
tão branquinho,
como no ar e em
redor,
vistoso lençol
de linho...
Sopra um
pouquinho de vento,
voam farrapos
no ar:
crianças, vendo
o evento,
colocam todo o
talento
no que querem
modelar,
sem perderem
um momento...
É que há muito
não havia
um espectáculo
assim!
E embora a
aragem tão fria,
ninguém esconde
a alegria
ao ver o manto
sem-fim,
que torna belo
esse dia...
Anda o pastor
pelo monte
o seu rebanho a
guardar,
desde que o dia
desponte,
até a noite
fechar!
Leva o bornal, o
cajado,
a manta p'ra se
cobrir:
Salta, contente,
a seu lado,
o fiel cão, a
latir!
A neve tomba,
faz frio,
ouvem‑se os
lobos uivar:
sente o pastor
arrepio,
mas mais tem que
vigiar!
Quando, porém, o
sol brilha,
ou sob um lindo
luar,
não há igual
maravilha,
na flauta
ouvi‑lo tocar!
Quem nunca teve
um cão não imagina
quanto ele
sofre, p'ra cumprir a sina
de estar preso à
corrente a toda a hora:
enraivece‑se,
ladra, uiva, chora,
na esperança de
que o solte alguém.
Mas só bem
aprecia quem o tem
e com ele
convive, dia-a-dia:
é um amigo na
dor e na alegria,
defensor,
serviçal, fiel, atento
(orelha guicha
ao mais ligeiro evento
que lese os
interesses do seu dono;
'stá sempre
alerta, até durante o sono)!
Já chegou a
Primavera,
porque eu vi as
andorinhas
poisar, cheias
de alegria,
no beiral da
minha casa
à procura do
lugar
para construir o
ninho!
Dá‑me tanto
prazer vê‑las,
voando por toda
a parte,
num chilrear
satisfeito,
por morar mais
uma vez
no seio de uma
família!
Depois, como em
outros anos,
nascerão os
pequeninos
que, logo que
vestidinhos,
seguirão quem
lhes deu vida...
Só então vem a
tristeza
na hora em que
pais e filhos
partem p'ra
outros países...
E mais um ano eu
aguardo
a vinda da
Primavera,
pois sei que
também com ela
regressam as
andorinhas,
para, de novo,
habitar
o beiral da
minha casa...
Ainda de
madrugada
fui à janela
espreitar:
nas silvas, ou
na ramada,
um melro a
assobiar!
Que bem que ele
interpretava
as melodias,
sem-fim,
que tudo ali se
alegrava
por ter um
artista assim!
Tentei, então,
imitá‑lo
e, baixo,
pus‑me a dizer:
"Seria tão bom caçá‑lo
e na gaiola o
prender!"
De tudo tinha
vontade,
ao escutá‑lo,
feliz.
Por isso, sinto
saudade
do tempo em que
era petiz!
Olha a linda
borboleta
a poisar em todo
o lado,
na cheirosa
violeta,
no jasmim tão
delicado!
Nos canteiros,
na verdura,
apraz tanto,
tanto vê-la,
como em noite
bem escura
cintilar
qualquer estrela!
Delicada flor
que voa,
sob um sol que
tudo aquece:
faz lembrar uma
canoa
que, subtil, o
rio desce!
É Páscoa na
minha aldeia
e a santa Cruz
vai chegar
a toda a casa,
festiva,
de muitos
enfeites cheia,
e traz sempre a
acompanhar
uma grande
comitiva!
O mordomo, em
todo o lado,
alegremente,
anuncia:
"Com Jesus
Ressuscitado,
boas‑festas,
aleluia!"
Diz o povo, com
agrado:
"Aleluia,
aleluia!"
Após um trabalho
árduo,
ou cansado de
brincar,
quem é que à
sombra da árvore
não gosta de
repousar?!
A árvore, tão
amiga,
em tudo nos dá
prazer
e com a sombra
frondosa
traz calma ao
nosso viver!
Dá folhas,
flores e frutos,
depende só da
estação,
três iguarias
que agradam
sempre ao nosso
coração!
Na vida de toda
a gente
ela é riqueza e
calor
e em cada dia
que passa
lhe ofertamos
mais amor!
Devemos, pois,
respeitá‑la,
no monte,
campo, ou cidade,
que os
benefícios que traz
são só de
felicidade!
Pela vida
lutaremos,
com firmeza e
com afã,
convictos de
que seremos
os crescidos de
amanhã!
Vede como sorri,
alegre, o coração,
e o quanto
amamos a vida,
por ser a jóia
querida,
que vibra feliz
canção!
Vamos acreditar
num mundo bem melhor:
onde haja em
tudo justiça,
ninguém
pratique a cobiça
e reine a paz e
o amor!
Data assim para
nós, de festa e de lazer,
devia haver
cada dia,
p'ra verem nossa
alegria
e o quanto nos
dá prazer!
São tantas e que
belas borboletas,
que mais
parecem flores do jardim,
pousadas nas formosas violetas,
na papoula, na
rosa, ou no jasmim...
E há‑as das mais
variadas cores
‑ quais ímpares
e puras obras de arte ‑,
buscadas, com
ardor, por toda a parte,
pelos sensíveis
apreciadores.
Eu quando nelas
penso, vejam bem,
lembro aquele
petiz que uma apanhou
e, muito alegre,
foi mostrá‑la à mãe:
Mas a tristeza
logo o assaltou,
porque em lugar
da linda borboleta
apenas achou pó
na mão aberta!
Quem é que não
quer
o vira virar,
enquanto tiver
bons pés p'ra
dançar!
Coitado de quem
não tem,
ao virar,
no bolso nenhum
vintém
p'ra gastar!
Ligeiro pé deve
ter
quem gostar
bastante de se
mexer
a bailar!
Nas voltas que o
vira dá
coração
balança, p'ra
lá, p'ra cá,
de paixão!
Ai vira e torna
a virar,
maganão,
que agora vai
terminar
a função!
Eu fui ao jardim
colher uma
flor,
p'ra dar ao
amor
que gosta de mim!
Eu fui ao jardim
colher uma
flor:
Não era p'ra
mim,
mas p'rò meu
amor!
Contudo, em vez
de uma,
juntei muito
ramo,
e fiz uma ruma
p'ra dar a quem
amo!
Também apanhei
um ramo de
rosas:
ninguém, eu bem
sei,
as viu mais formosas!
Por fim, recolhi
um grande
braçado
das muitas que
vi
no chão
extremado!
Eu fui ao jardim
colher tanta
flor,
p'ra dar ao
amor
que gosta de
mim...
Não encontro
palavras p'ra exprimir
a alegria que
sinto quando escrevo!:
Apenas sei que
fico desviado
de guerras, do
bulício do mundo;
das desavenças,
discussões, nisérias;
pobreza, fome,
violência, dor,
atentados,
trapaças, covardias,
invejas,
terrorismo, aberrações;
faltas de
dignidade, despudor;
abortos sem
controlo; cataclismos,
incompetência,
droga, genocídios;
crianças sem um
lar, abandonadas;
velhinhos
desprezados, sem um tecto
que lhes dê o
sossego, porque anseiam;
divórcios
incontáveis, que desolam;
por tudo e todos
desrespeito; vândalos
que só se
alegram com destruições;
os fogos postos,
indiscriminados;
os poderosos
sempre protegidos,
enquanto os
pobres cada vez mais pobres,
mais oprimidos e
desamparados;
os loucos do
poder, por todo o lado,
a semear a
desavença, o ódio...
Absorto, quando escrevo, nada sinto,
a não ser a alegria que me inunda
nesses momentos de concentração...
Enquanto houver
pobreza pelo mundo
e o rico
pretender mandar em tudo,
não poderá
haver Democracia,
essa palavra
bela, ambicionada,
que aos quatro
ventos sempre é proclamada!
Às vezes aparece
quem deseja
pô‑la na
prática, mas logo a inveja
dos que nada
fizeram para havê‑La
se sobrepõe às
boas intenções
dos que comungam
tais opiniões.
Quando existirá,
pois, na Humanidade,
uma Democracia,
de verdade?
Ainda lhe
pediram reflexão.
Pertinaz,
todavia, não cedeu:
e foi por isso
que a população
numa sangrenta
luta se envolveu.
Em toda a era e
em qualquer nação,
um tresloucado
sempre apareceu,
sem um pouco de
consideração
p'lo povo que,
convicto, o elegeu.
Por mais que nos
esforcemos
não conseguimos
gostar
da terra onde
colocámos,
por força, a
nova morada,
como da que nos
foi berço...
Pode mesmo ser
mais rica,
com múltiplos
atractivos,
em contraste com
a nossa:
simples,
humilde, pacata...
Ficamos presos a
ela
e cada vez mais
redobram
o amor e as
saudades...
Jamais nos
libertaremos
dessa santa
nostalgia,
que faz crescer
o desejo
de lá voltar a
viver
e saber o que se
passa
ao pequeno
pormenor...
Gozar as coisas
queridas,
que aos outros
não interessam,
mas que ao nosso
coração
dão momentos de
ternura...
São cânticos
nunca ouvidos
que me inundam
os sentidos:
As águas a
marulhar;
a brisa, muito
de leve,
o calor a
temperar;
o tombar da alva
neve,
que of'rece ao
pintor, atento,
mil quadros ao
seu talento!
Um concerto
variado,
por mão de
artista, esmerado,
em portuguesas
guitarras;
as vozes da
noite e dia:
De grilos,
ralos, cigarras,
cucos, poupa,
cotovia,
de rouxinóis,
melro, rolas;
do rescender
das papoulas
e dos craveiros
floridos;
das gargantas
afinadas
os mornos cantos
saídos,
como em doces
revoadas!
Do vento, sol e
estrelas;
da lua, frio e
calor;
de todas as
aguarelas,
concebidas, com
primor,
p'la abundante
Natureza,
que sempre
causam surpresa!
...E os cânticos
nunca ouvidos,
sussurrados com
ternura,
levaram os meus
sentidos
a compor a
partitura
da mais ímpar
sinfonia:
Feita de
compreensão,
justiça, paz,
alegria,
saúde, amor e
perdão!...