Prefácio
Pórtico
Cabelos brancos
Fuga
Cantata
Precaução
Parabéns, Amor
Búzio
Seara vazia
Trivial
Distracção
O mendigo
Fadinho Batido
Voga, barquinho
Gavião
A
mão de Deus
Aleluia
Determinação
Dissabor
Ditame
Retrospecção
Desalento
Bonança
Ao José Manuel Mendes,
que me incutiu o gosto pela Poesia
À minha Mulher,
Aos meus Filhos,
que ontem e hoje me cumulam de Ternuras
Celeiro de Retalhos, como o título indica, reúne os frutos sazonados de
uma sementeira arduamente amanhada nas agras sacrificiais da vida.
Poema a poema, o autor enche a tulha ampla do peito, essa arca arejada da consciência, com as colheitas de um são‑miguel farto de sonhos vigorosos, de vingados apelos, de nostalgias mirradas por um tempo inclemente, enfim, de histórias de proveito e exemplo e relatos pícaros da condição humana.
O perfume do humanismo são e desinteressado extravasa da loja abonada do poeta e como que nos envolve numa digressão pela imensa seara existencial, nascida da chã gorda e grávida da memória. É neste alfobre de sonhos e angústias que encontramos o poeta medularmente implicado com toda uma mundividência rural, onde não falta o folclore religioso e profano, a formulação de um voto, a assumpção da dor alheia, a consciência social do povo.
De todo este fervilhar da vida, de toda esta voragem do tempo, é o autor, mais que uma testemunha impassível, um partícipe emocionado, particularmente quando a tragédia dos outros acontece para lá das raias do explicável. Então, o poeta nem precisa de afastar a cortina da indiferença, porque a não tem, e chora com quem chora, assumindo como sua, no fundo, a dor humana, essa expiação que tantas vezes purifica a alma e convoca os sentimentos místicos.
Aqui reside uma faceta singular da poesia de José Fernandes da Silva, já visível em Relicário (1993), pois toda ela está trespassada por um profundo lastro solidário e fraternal, resultado de uma atitude do tipo samaritano para com todos os infelizes e infortunados.
Ainda que o autor, por vezes, se distraia com o trivial e o comezinho da vida, ainda que se inebrie um pouco com o doce engano do fluir de sensações reconfortantes e de fagueiras recordações, não pode jamais libertar‑se da consciência do tormentório humano, o qual exprime, em Celeiro de Retalhos, a sua mais decisiva decorrência poética. De resto, este "calvário" terreno e inseparável do destino do homem, podendo apenas ser temperado com o calvário divino de Cristo, cuja dor e martírio supera de longe a da condição humana, e que o autor nos aponta a título de exemplo e elevação moral.
Não admira, pois, que o poeta sonhe com a redenção da dor e divague sobre as possibilidades de ter um cavalo de vento que lhe levasse num halo o pensamento e o libertasse muito mais do mundo que de si próprio:
"Queria ter um
cavalo,
mas um cavalo de vento,
que a qualquer hora, num halo,
me levasse o pensamento..."
Mas, "o triste
fado da vida" corta-lhe cerce as asas com que queria ascender aos céus da
fantasia e recondu‑lo a uma vigília penosa, salpicada, embora, de tempos a
tempos, por breves momentos de paz interior.
Fiel a um estilo que já o norteou em obras como Cofre de Ternuras (1992) e
Relicário (1993), o procedimento clássico e a consequente busca da perfeição
formal
associam‑se ao labor rimático e à eufonia da palavra. A imagística, por
vezes, é fulgurante, como no poema "Presto", o ritmo melódico é inexcedível
como no poema "Voga, barquinho" e, a espaços, o autor deita mão do
vocabulário erudito com o que doura todo um edifício de laboriosa palavra
construído.
Da leitura de Celeiro de Retalhos fica‑nos na nossa sensibilidade de leitor
um indelével perfume de humanismo, quiçá raro neste mundo estulto e sôfrego,
mas por
isso mesmo mais valioso e reconfortante. Que outros celeiros como este se
abram ao nosso espírito sedento de solidários frutos e benesses de harmonia
e paz.
Fernando Pinheiro
Com mil carinhos peguei
nos variados
retalhos
(o fruto dos meus trabalhos)
e no Celeiro os guardei.
São pedaços
retirados
do mais fundo do meu ser,
só com ternuras regados
para um subtil florescer...
Por que reparam nos cabelos brancos
que tanta gente exibe: quer idosos,
abrindo grandes olhos, maviosos,
olhando tudo com sorrisos francos;
quer jovens,
que tropeçam nos barrancos,
que aparecem na vida, descuidosos?
Há‑os aos caracóis, lisos, sedosos;
em tranças, soltos, a tocar os flancos...
Não é a idade
que lhes muda a cor:
às vezes são as ralações da vida;
o resultado de incansável lida;
as frustrações
no campo do amor;
problemas de saúde; ou uma herança
de complicações tidas em criança.
Dedilho,
levemente, o meu piano
em busca de harmonias repousantes:
nenhuma me parece como dantes
e eu procuro‑as num trabalho insano.
Como retalhos
feitos de ruim pano
no vazio se perdem, anelantes,
fugindo‑me as composições gigantes,
que consagravam um antigo plano.
Suponho ser o
gélido marfim
das teclas do vetusto instrumento,
que levam para longe a inspiração.
Mas eu sinto
vibrar dentro de mim,
em formas de alegria, ou de lamento,
com grande amor, magnífica canção!
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A
Como deslizam
as águas
do riacho de cristal,
sem penas, nem dor, nem mágoas,
em solene pastoral!
B
Se não credes
no amor,
amai, uma vez, ao menos,
p'ra poderdes dar valor
à tristeza dos terrenos,
que se contorcem com sede,
em busca de uma cor verde!
C
Há quem diga que o ciúme
faz penar e até morrer,
como quem espeta o gume
de uma lança, sem querer...
D
Como os
espinhos às rosas
na vida dão protecção,
não podiam, mãos piedosas
suavizar o coração,
que grita, desesperado,
por não ter o mesmo Fado?
E
Sempre na Vida entristece
quando, sem 'scolher a idade,
a ímpia Morte aparece
e deixa o luto e a saudade...
F
Ai a borboleta, sim,
poisa na flor
que deseja
e tudo lá no jardim
não sabe esconder a inveja
por vê‑la partir, voltar,
sem a poder imitar...
A
Como deslizam as águas
do riacho de cristal,
sem penas, nem dor, nem mágoas,
em solene pastoral!
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Sem medo ao
perigo
meu desejo rola:
vou ver se consigo
meter em gaiola
tanto vício antigo!
Mal
acompanhado,
deixá-lo à solta
é muito arriscado:
por segura escolta
vou pô-lo isolado!
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Celebras hoje mais um dia, Amor,
do teu aniversário. Não sei,
ao certo, que presente te darei,
porque a nada, afinal, dou mais valor
do que àquilo
que és. Talvez a flor
substituísse quanto imaginei:
mas como a ela sempre te verei
e nenhuma te excede no primor!
Então
ultrapassaste a bela idade,
que chamam "a ternura dos quarenta"!
Já que tu és a minha f'licidade
e de carinhos
dado provas tens,
na chama que nos une e nos alenta
apenas quero dar‑te os parabéns!
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Soprei num
búzio e tive sons perfeitos
de um qualquer instrumento da família
dos metais, ou madeiras, temperados
ao paladar de quem os aprecia!
Depois,
veio‑me à ideia que, na infância,
muitas vezes ouvi um a soar,
chamando quem andava pelos campos,
com ânimo, a lidar de sol a sol...
Diziam que o
pusesse nos ouvidos,
porque por ele se ouviria o mar!
E na verdade, com toda a inocência
que a nossa pequenez acarretava,
parecia que o mar estava ali!
Finalmente,
não era nada assim:
a mesma sensação se concretiza
quando impedimos que circule o ar
e não atinja a todos os instantes
os ouvidos sensíveis e atentos...
De novo,
então, eu vou soprar no búzio,
à procura de sons misteriosos,
que façam recordar o mar profundo...
Valei àquele
que pede,
por caridade, um tostão,
a fim de matar a sede
e ter um naco de pão!
Ainda por todo
o lado
está implantada a fome,
um flagelo imensurado,
que a Humanidade consome!
Em armas se
desbarata
dinheiro que não tem conta
e a pobreza é a sucata
que aos ricos bem pouco monta!
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...E
resolveram casar,
mau grado as
vozes discordes
no seio familiar:
Ela era 'inda adolescente,
em oposição ao noivo,
um trintão experiente...
Por isso foi a
ilusão
que a levou a declarar
sentir enorme paixão
pelo homem que escolhera
e a quem, sem quaisquer reservas,
alegremente, se dera...
Só agora
concluiu,
após imensos desgostos,
que o caminho que seguiu
não era aquele sonhado
com belas rosas, fragrantes,
mas sim de acúleos pejado!
Ficou‑lhe no
ventre um filho
e uma amarga solidão,
como herança do sarilho
do seu frustrado consórcio,
já que ao fim de poucos meses
se consumou o divórcio...
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Uma vez, certo
menino,
de uma casca de pinheiro,
fez um barco pequenino:
pôs‑se num tanque a brincar,
fingindo ser marinheiro,
e deixou‑o afundar...
Então chorou
de amargura,
por tão grande distracção:
tinha posto na feitura
do brinquedo delicado
carinho, amor, devoção,
e viu‑se dele apartado!...
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Exausto, com semblante comovente,
um mendigo, no chão, abandonado,
a tiritar, com frio, as mãos erguia,
na dolorosa esp'rança de que gente
ali passasse e, ao ver o seu estado,
por grande
compaixão lhe acudiria...
O tempo foi
passando, lentamente,
sem que vivalma tenha utilizado,
como era habitual, aquela via...
E o sol, que despertou bem sorridente,
encontrou o cadáver salpicado
dos orvalhos da noite negra e fria...
Depois, apareceu
de todo o lado
quem pranteasse ardente litania!
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Convenceu‑se
toda a gente
de que a sua opinião
era a mais adequada
àquele caso indecente,
que envolvia um figurão
e uma desavergonhada...
Não era a
primeira vez
que ela se portava mal;
e ele não seria alheio
a certo grupo maltês,
que em redor e no local
tinha no roubo recreio...
Todos queriam
ter razão
e pugnavam p'ra que fosse
válida a sua invenção.
E o ambiente azedou‑se,
com mútuas ameaças
e indecorosas chalaças...
E tudo afinal,
por quê?
Há alguém que passa e vê
os dois jovens se beijar
numa cena de ternura
e logo foi espalhar
que aquilo não tinha cura
e que o que
viu nem dizia,
porque era uma porcaria!
Mas só não disse o que viu
e foi a imaginação
de quantos dela o ouviu
que deu uma sugestão...
O certo é que era mentira
e a terna cena que vira
fôra casta e só de amor;
assim como o
que inventaram
e a pés juntos afirmaram
não tinha qualquer valor...
Foi por isso
que mais tarde,
p'ra desfazer confusões,
uniram os corações
na chama que ainda arde,
com esse beijo bendito
que faz o amor infinito...
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Voga,
barquinho,
percorre o mar,
devagarinho,
quero sonhar...
É grande o mar, infinito,
com ondas sempre a rolar
e eu sei que ele é tão bonito,
que não canso de o lembrar!
Lençóis de
espuma, bordados,
deslumbram o meu pensar:
os meus sentidos, cansados,
querem neles repousar...
Voga,
barquinho,
sem descansar,
és o bercinho
p'ra me embalar...
Quando balouça
o barquinho,
no meio da tempestade,
Não há seguro caminho
para a minha veleidade,
que estando o
mar agitado
confesso que tenho medo
de poder ser esmagado
de encontro a qualquer rochedo...
Voga,
barquinho,
sem hesitar,
sulca o caminho,
de alvo a brilhar!
Ai que o mar é
sempre belo,
quer na calma, ou no tufão,
e como gosto de tê‑lo
é pleno de mansidão.
Mas mesmo
quando há procela
me embriaga o largo mar:
pela formidável tela,
que espanta e faz meditar...
Voga,
barquinho,
no largo mar,
tão de mansinho,
quero sonhar...!
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Ó ligeiro gavião
atende‑me o suplicar
deste pobre coração,
que quer desanuviar!
Leva‑o a
cruzar montanhas,
ver mares, colinas, montes,
vencer distâncias tamanhas,
buscar novos horizontes!
E se acaso vos
for dado
atingir o grande Sol,
a todo o desamparado
dai um seguro farol,
para que
jamais na vida
o persiga o mau Destino
e cicatrize a ferida
que o oprime desde menino,
por não ser
iluminado
pela lanterna da Sorte,
ficando assim condenado
a não ter nem Sul, nem Norte...
Afinal, 'stou
a sonhar,
delicado gavião:
não vale a pena enganar
meu sensível coração...
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Sucedeu, não
há muito, em minh'aldeia
um episódio fora do vulgar,
que consternou a inúmera plateia
e que, magoado, aqui vos vou narrar:
Havia com três
filhos um casal
(dois rapazes e uma rapariga).
Cedo deixou o seu rincão natal,
de olhos cravados na fortuna amiga,
o marido, que
em França vai parar.
Correu‑lhe bem a vida. E os dois filhos,
quando chegou a idade de emigrar,
seguiram, com labor, os mesmos trilhos.
Também aos
dois a sorte foi sorrindo
e, no momento certo, desposaram
a companheira do seu sonho lindo:
cada lar com um filho povoaram.
A fazer
companhia à mãe ficou,
no decorrer da vida, a jovem filha...
Ao fim de muitos anos regressou
o pai, com um quinhão de maravilha,
fruto de tanto
esforço despendido,
até voltar ao lar, definitivo...
Em certa noite tinha‑se perdido
e, sem que alguém decifre um tal motivo,
hirto, num
lugar ermo, é encontrado,
na poça que ele conhecia bem:
Não o deixou a Morte ter gozado
os louros a que um ser direito tem.
Sentiu‑se em
certa época doente
o primogénito, que resolveu
vir da Suíça, onde era residente,
em busca da saúde que perdeu.
Todavia, a
doença era incurável
e o irmão da França veio visitá‑lo.
Ao vê‑lo num estado lastimável
decide com a irmã recomendá‑lo
a uma suposta
santa lá p'ra Arouca.
Puseram‑se a caminho e viajaram,
ansiosos, numa corrida louca.
Num despiste brutal, já perto, acharam
a Morte, que
deixou o padecente
'inda assistir a uma tal desgraça.
Casara há pouco a moça e no seu ventre
(funestas malhas que o Destino traça!),
também arrasta
um fruto sazonado...
E aquele que os irmãos queriam salvar,
dias depois, mais triste e conformado,
no cemitério se lhes vai juntar!
Em poucos
meses pai e os três irmãos
desaparecem sem ninguém contar:
é que só Deus conserva em suas mãos
o Destino que tem para nos dar...
E a esposa, a
mãe, que tudo tinha tido,
em curto espaço fica como Job:
despojada do seu tesouro qu'rido;
forçada, dia-a-dia, a viver só...
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A Cruz, p'ra
se beijar,
percorre a freguesia
e tudo a se saudar:
"Aleluia, aleluia!"
O alegre
repicar
dos sinos nesse dia
parece anunciar:
"Aleluia, aleluia!"
Amaina o bravo
mar,
não uiva a ventania,
pois querem sussurrar:
"Aleluia, aleluia!"
As flores a
enfeitar
as casas, qualquer via,
estão a exalar:
"Aleluia, aleluia!"
Exulta cada
lar
em rara sintonia,
num coro de encantar:
"Aleluia, aleluia!"
O enfermo, a
agonizar,
em funda litania
só quer balbuciar:
"Aleluia, aleluia!"
A terra e céus
a arfar
vibrante sinfonia,
por tudo a ecoar:
"Aleluia, aleluia!"
Não canso de
incitar
os falhos de energia,
comigo p'ra entoar:
"Aleluia, aleluia!"
Por fim, vou desejar
que seja em harmonia
a forma de expressar:
"Aleluia, aleluia!"
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Que mimos ela fazia
à sua recém‑nascida!
Não estava arrependida
da resolução tomada.
É certo que preferia
ser outra a situação,
mas supunha que era amada
no momento da ilusão...
Mas o que mais
lhe doía,
naquele transe da vida,
era o saber‑se esquecida
e a filha não perfilhada.
Por ela, então, lutaria,
no ganho de amargo pão,
p'ra sentir-se compensada
de tamanha frustração...
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O que é que aconteceu ao rapazito
que, imóvel, junto ao rio, grossas lágrimas
deixava pelas faces deslizar?!
Segurava, bem firme, a longa cana,
com o anzol, vazio, a balouçar!
"Que mágoa te
consome? Foste vítima
de algum problema grave, sem remédio?"
Inquire, com ternura, um pescador.
"É que senti pesado o meu anzol
e, ao retirá‑lo d'água, com vigor,
vi que trazia
pendurado um peixe:
mas, ao tentar colhê-lo para terra,
não sei como, elevou-se e mergulhou,
formando ténues bolhas na corrente
e uma pequena onda se agitou!"
Compreensivo,
o homem lhe sugere:
"Não vale a pena estares assim triste,
por causa desse peixe se evadir:
do meu cacifre toma os que quiseres,
que em vez do choro eu quero-te a sorrir!"
"Não é a
quantidade que me importa,
embora lhe agradeça o gesto amigo.
Contudo, o que das águas retirei
e que de novo nelas se sumiu,
era o fruto do tempo que passei
à espera que
caísse na esparrela.
Por isso choro, ao ver que foi inútil
o sacrifício e tempo que perdi..."
"Tens razão, meu pequeno, mas na vida
mil vezes chorarás como hoje aqui..."
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Quando te fores do mundo
(nesse dia que será
o mais triste que vivi),
ai que desgosto profundo
sobre mim se abaterá,
pois p'ra sempre te perdi!
São mágoas que
me visitam
e que eu tento pôr de lado,
pelo muito que te quero.
Nossos corações palpitam,
com amor acrisolado,
e por muito tempo, espero,
já que tens
sido p'ra mim
uma incomparável flor
a povoar meu jardim:
Que eu sempre tenha o ensejo
de envolver‑te nesse beijo
que me anima e dá vigor!
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Segui conforme
pude o meu Destino,
guiado pelos sábios conselhos
que, atentamente, quando era menino,
fui ouvindo da boca dos mais velhos.
E com isso não
me dei mal, confesso,
porque achei positivo quanto fiz,
apoiado na sua experiência.
Por outro lado, triste, reconheço
que muitos outros que seguir não quis
se pautaram por fraca florescência...
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Tantas vezes na vida me torturam
recordações daquilo que não fiz,
mas que podia ter realizado,
e penso até se valerá a pena
lutar para cumprir o projectado...
Nesses
momentos lânguidos, confundem-se,
em turbilhão, as múltiplas ideias,
que se atropelam e pretendem ser,
à força, vencedoras da contenda,
que acaba por me dar maior sofrer...
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Nas horas de desânimo, em que os nervos
estão tensos, faz bem retemperar
o fatigado espírito com coisas
diferentes, suaves, como há muito
não comungava o nosso paladar!
Em catadupas,
montes de lembranças
nos visitam: tentamos esquecer
o que ao longo da vida nos feriu
e deleitamo‑nos com os momentos,
que foram de alegrias e prazer!
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Sem que eu pudesse repousar, as noites,
com lentidão, lá iam decorrendo.
E pela mente desfilavam críticas
severas, em reprovação da forma
como encarava,
às vezes, os dilemas,
que a cada passo a vida me ensombravam.
Em uma dessas
noites decidi
aceitar, com seriedade, as críticas
e dar um novo e firme rumo a tudo
que até à data havia desprezado...
Então,
adormeci tranquilamente
e passei uma noite como há muito
não desfrutava o meu cansado espírito:
tudo passou, apenas porque achei
a enigmática chave do problema...
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Um revólver disparava
no meio da confusão
e a bala, sem sul nem norte,
atingiu o coração
de um sem culpas, que passava
e ali encontrou a morte.
Um pai de
filhos, coitado,
honesto a levar a vida
que, ao a casa regressar
do trabalho, fatigado,
injusta bala, perdida,
lhe põe termo ao labutar...
Quem enxugará
o pranto
dos filhos e da mulher,
envoltos por triste manto?
E quem irá sustentar,
nos contratempos que houver,
este destroçado lar?...
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Há sempre quem inveje as alegrias
que pela vida, às vezes, desfrutamos
e tente transformar em agonias
o que, com muito custo, conquistamos.
Mas, por que
existirá desde as origens,
em tantos, uma sórdida soberba,
que à Humanidade vem causar vertigens
e àqueles que são rectos exacerba?
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Queria ter um cavalo,
mas um cavalo de vento,
que a qualquer hora, num halo,
me levasse o pensamento
a certas zonas
ignotas,
para lá depositar
minhas ideias remotas
e me poder renovar...
Mas onde é que
encontrarei
um raro exemplar assim,
a quem tudo ofertarei
p'ra me libertar de mim?...
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Que foi uma tragédia não há dúvida,
mas o homem não teve qualquer culpa:
Num hábito de
há mais de trinta anos
ligou a ignição e pôs‑se em marcha...
Puxou atrás, acelerou e viu,
horrorizado, com as mãos atadas
na cabeça, que a dor estonteava,
o seu netinho único num bolo!
Jesus!,
Jesus!! Ai... como fôra aquilo?
...Quando
voltou a si, no hospital,
para onde o levaram sem sentidos,
abriu os olhos, devagar, medroso,
e reviu o terrível espectáculo:
Um grito
lancinante revibrou
e de novo, o prostrou... O pequenino,
traquina, com dois anos, escondeu-se
atrás do camião, para brincar
com o avô, que tanto se alegrava:
Não o sentiu. Por isso, manobrou
e só deu conta quando os olhos, lívidos,
a tremenda tragédia lhe mostraram...
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(22/1/1992)
A foice que
servira há poucos dias,
bem firme, transportava a mão da Morte
e, implacável, sem ter Sul, ou Norte,
a foi cravar naquele que agonias
carpia p'la família da consorte...
Ele deixava
tudo inconsolado,
após as privações tidas na vida,
para atingir a íngreme subida,
que há longo tempo havia programado
e era motivo de incansável lida...
E, de repente, a foice que pingava
gotas de sangue em abundância, cresce,
impiedosa, sobre ele, e acontece
a tal tragédia, que ninguém 'sperava!
E outra vez, tudo e todos, entristece...
Partiu, então,
o amigo dedicado,
o pai bom, o esposo estremecido,
sem ter sua quimera concluído!
Hoje e sempre, a cumprir o triste Fado,
Ela acerta no alvo pretendido!
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O pequenino
dorme, dorme,
com lindos sonhos, a sorrir:
pela janela, a Lua enorme,
desfaz‑se em luz, para o cobrir!
Porque lhe
disse estar presente,
sobre os telhados, um papão:
ai como dorme o inocente,
ainda há pouco resmungão!
Foi‑me pedindo
que enxotasse,
para bem longe, o comilão:
eu insisti que sossegasse,
que ia mandá‑lo embora, então...
E agora é vê‑lo,
dorme, dorme,
com sonhos tais, sempre a sorrir:
já foi andando a Lua enorme
outras paragens a cobrir!
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(Para meditar)
Nos momentos
de luta é lamentável,
tantas vezes, a falta de união:
por comodismo, uns dizem ser estável,
há longo tempo, a sua situação,
por isso,
julgam não será viável
alguém tomar contrária posição.
Outros bem sabem que é mais confortável
os lucros retirar da confusão.
Conclui‑se,
então, que é pouco razoável
ser sempre o desgraçado mexilhão
a suportar os custos da função:
Isto por ser
em tudo responsável
e manter, com firmeza inabalável,
uma digna e sincera opinião!
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Ao "par ou pernão"
adoro jogar
e sou campeão,
quando à minha mão
não chega o azar!
'Squecendo a
fadiga
é mais p'lo Natal
que esta moda antiga
une a malta amiga,
com ar jovial!
Depois tudo
esquece
ao longo de um ano.
Só quando aparece,
de novo, a benesse
se traça o plano
do bom
passa-tempo
que a todos encanta.
Ai que sentimento
produz o evento
dessa quadra santa!
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Vinde à porta, ou à janela,
ós da casa,
apreciar
quem nesta noite tão bela
as janeiras vem cantar!
Sabei que quase passados
estão dois mil anos já,
desde que na gruta entraram
Maria e José, forçados,
porque hotel não encontraram,
e onde Jesus nascerá.
Foi isto lá na
Judeia,
na cidade de Belém:
Os três Reis Magos trouxeram
de prendas uma mão‑cheia
que, alegremente, puseram
aos pés do Filho e da Mãe.
Quem, porém,
chegou primeiro,
foi tanto e tanto pastor,
que se guiou pela estrela
e trouxe o melhor cordeiro,
para uma oferta singela
ao pequeno Rei de amor.
Quem tinha um
Destino nobre
na vida para cumprir
nasceu numa manjedoura,
em frias palhas, tão pobre:
mas com bondade que doura,
eternamente, o Porvir.
Um coro,
sem-fim, entoa
magnífica pastoral
desde o alto ao mar profundo:
"Exulte toda a pessoa,
porque o Salvador do mundo
já chegou pelo Natal!"
Boas-festas
desejamos
a todos quantos estão
a ouvir estas janeiras:
Para o ano cá voltamos
a saudar as prazenteiras
gentes de bom coração.
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As coisas da
minha aldeia,
que sempre hei‑de recordar:
Os serões
depois da ceia
e os fusos a saltitar
à luz frouxa da candeia
e belas canções no ar!
Nos campos as
sementeiras;
o arado a terra a lavrar;
entre o milho, as mondadeiras
entoam lento cantar,
como fazem as ceifeiras,
p'lo sol, centeio a cortar!
O tempo das
desfolhadas;
do pão na eira a secar;
das vindimas e pisadas;
dos porcos a chamuscar;
da azeitona as varejadas
e à noite farto cear!
As partidas de
sueca,
ou então de dominó,
com uns beijos na caneca,
repenicados, sem dó,
que acabavam em soneca
e, às vezes, a falar só...
Gostosa
castanha assada,
pinguinha de consolar;
a chouriça defumada,
que vinha mesmo a calhar
(já dentro da madrugada)
para o serão rematar...
Era tradição
antiga,
que ao meu tempo 'inda chegou,
reunir‑se a malta amiga
na casa que se aprazou,
após a imensa fadiga
de quem de dia lidou...
Não sei se
ainda acontece
o convívio salutar,
que a paz da aldeia oferece
a quem sabe apreciar
o tempo, que não esquece,
de alegria e bem-estar...
O que dá, por
ser querido,
na vida satisfação,
jamais será esquecido,
pois é a forte razão
para conservar florido,
vida fora, o coração...
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Ao Luís Gavina
O amigo certo, quando solicitado
Muitas vezes medito nas proezas,
inimitadas maravilhas, que houve
na Galileia há dois mil anos já,
atribuídas a um Homem bom,
que pelos outros tudo sofrerá...
E um rosário, sem-fim, vou desfiando:
Busca a Virgem Maria uma estalagem,
para com o esposo pernoitar
e, ao ser-lhe recusada em toda a parte,
na humilde e fria gruta O vai gerar...
Vieram
visitá-l'O os Magos Reis
e Lhe ofertaram ouro, incenso e mirra,
assim como os pastores, que trouxeram
do melhor que existia em seu redil
e humildes, a seus pés, O bendisseram!
Também as
legiões, inumeráveis,
de todos os espíritos celestes,
oratórias magníficas cantaram,
em coros de harmonias nunca ouvidas,
que de um extremo ao outro se espalharam.
Depois, muito
pequeno, a discutir
com os doutor's da Lei no santo templo.
Na sua vida pública a pregar
às multidões, que tudo abandonavam
para O seguir e, crentes, escutar.
E os milagres,
sem conta, realizados:
Nas bodas de Caná transforma em vinho
a água que nas talhas foi deitada;
atesta a rede de abundante peixe,
que antes, vazia, fôra retirada;
os paralíticos
de braços mexem‑nos,
enquanto que os de pernas se deslocam;
os surdos ouvem; cegos vêem; falam
os mudos; e inúmeros leprosos,
sãos da moléstia, para o lar abalam;
restabelece,
de doença grave,
um empregado de um oficial
do exército romano, que sofria;
caminha sobre as ondas e amaina
o mar revolto e a forte ventania;
ao tocar‑Lhe
sentiu o sangue estanque,
uma pobre mulher, que há longos anos
se debatia com hemorragias;
expulsa das pessoas maus espíritos,
que insuportáveis tornam os seus dias;
o filho da
viúva de Naim
e a filhinha de Jairo ressuscita;
e ao seu amigo Lázaro igual
sentença dá que, ao ser chamado à pressa
e Lhe afirmarem que cheirava mal,
porque jazia
morto há quatro dias,
lhe toma a mão e restitui à vida;
para dar de comer à multidão,
cinco pães e dois peixes abençoa
e, ao fim, diversos cestos sobrarão...
Exprime‑se por
meio de parábolas,
e que belas parábolas expõe!:
O filho pródigo, que o pai despreza,
levando o dote que lhe pertencia
e, perdoado, apenas traz pobreza;
o bom pastor,
que sempre dá a vida
pelas próprias ovelhas, que O conhecem;
o grão de trigo que, lançado à terra,
se não morrer, jamais dará seu fruto;
o agradável sabor, que o sal encerra,
perdendo‑o
deixará de ser salgado;
não se deve
acender um candeeiro,
para debaixo de uma caixa pôr;
a colheita abundante na seara,
mas pouco pessoal trabalhador;
o grão que se
semeia de mostarda
e, sendo a mais pequena das sementes,
se vai em planta enorme transformar;
o fermento minúsculo que faz
grande porção de massa levedar;
só uma boa
árvore dará
um fruto bom, pois que da apodrecida
apenas frutos maus se colherão;
o homem que a semente à terra lança
e os grãos em vários sítios cairão:
Uns, comem‑nos
as aves. O sol queima
os que nasceram sem raiz, nas rochas.
Outros, por entre espinhos, abafaram.
E outros ainda, em terra bem saudável,
múltiplos e bons frutos procriaram;
a compra de
uma preciosa pérola;
o tesouro escondido num terreno;
o lavrador que o trigo semeou,
vindo durante a noite um inimigo
e, por maldade, joio misturou...
Em suma: este
Homem bom apregoava
uma nova maneira de viver:
A reciprocidade no amor;
perdoar as ofensas; não furtar;
sempre fazer o bem, seja a quem for;
Ser pacífico,
manso, humilde e simples;
não levantar os falsos testemunhos;
desprezar a soberba e opressão;
às crianças, aos órfãos, às viúvas,
aos tristes, aos carentes de água e pão,
aos presos,
aos mendigos, não negar
solidariedade; não mentir;
não cobiçar o que a outrem pertence...
‑ Tal era a sã doutrina que Jesus
tinha nas pregações sempre presente!
E porque o que
pregava Ele fazia
e o que dizia ouvir aos poderosos
não convinha, foi um sem-fim de intrigas
que se gerou e um forte ódio de morte
a fervilhar nas hostes inimigas.
E aqueles que
ainda há pouco O proclamavam,
com incontáveis ramos de palmeira,
quando em Jerusalém, sobre um jumento,
triunfalmente, entrou ao som de cânticos
e frases de feliz contentamento,
correndo ao
seu encontro e a gritar:
"Hosana, hosana, ao Filho de David!
Honra ao que vem em nome do Senhor!
Seja o Rei de Israel glorificado!
Bendito seja o nosso Salvador!"
Muitos deles
não foram corajosos
na defesa cerrada do Messias...
Alguns dias depois de na cidade
ter sido alegremente recebido,
e usando de tenaz agilidade,
expulsa os
vendilhões do santo templo.
Recorda aos seus discípulos que a Páscoa
em breve ia chegar e, amargurado,
que aos inimigos o Filho do Homem
entregarão p'ra ser crucificado.
A festa dos
pães ázimos chegou
e uma ceia, Jesus, aos seus discípulos,
na noite do solene dia, deu.
E nessa ceia aos doze garantiu,
com frases que os convivas surpreendeu,
que um deles o
iria atraiçoar.
Jesus, durante a ceia, a Deus deu graças
e do seu pão tomando e do seu vinho,
após abençoar, aos seus discípulos,
solenemente, of'rece, com carinho,
dizendo que
comessem e bebessem,
que era o seu corpo e sangue que lhes dava:
e assim na santa noite instituía
a dádiva de amor e de perdão
‑ o sacramento da Eucaristia.
Depois de
terem entoado cânticos,
para o Monte das Oliveiras foram.
Mais tarde, aflito e muito angustiado,
num sítio conhecido por Getsémani,
Jesus foi, só, orar p'ra outro lado.
E por três vezes fez a mesma súplica:
"Se for possível, Pai, de Mim afasta
o cálix de amargura. Todavia,
faça‑se a tua e não minha vontade!"
Regressando ao
seu grupo, que dormia,
lhes disse: "A
hora em que o Filho do Homem
vai ser entregue às mãos dos pecadores
próxima está. Partamos, sem demora,
que aquele que me vai atraiçoar
com esse bando vai chegar agora!"
E então, mal
proferiu estas palavras,
Judas Iscariotes, que era o bolsa
e por trinta dinheiros ajustou
entregar o seu Mestre, apareceu
e com um beijo falso O indicou.
Jesus ao ver
alguns guardas do templo,
que pelos fariseus e pelos chefes
dos sacerdotes foram enviados,
e um batalhão de militar's romanos,
com lanternas, archotes, bem armados,
lhes perguntou
a quem é que buscavam?
"Jesus de Nazaré", logo disseram.
"Sou Eu", lhes retorquiu. "Se me procuram,
levem‑me, mas em paz deixem ir estes".
Então O agarraram e prenderam.
Para a casa de
Anás O conduziram,
a fim de, sem demora, ser ouvido.
Depois de interrogá‑l'O, ordena Anás,
já que uma decisão não quis tomar,
que O levem à presença de Caifás.
Este, nada
também quis resolver
e manda que O entreguem a Pilatos
(governador romano no local).
Pilatos inquiriu se àquele Homem
tinha alguém visto praticar o mal?
Segunda vez
interrogou Jesus
e diz ao povo que razões não vê
p'rà morte O condenar, como pediam.
E já que era costume pela Páscoa
um preso lhes soltar, se pretendiam
que naquele
ano fosse o Nazareno.
E a multidão, aos gritos, agitada,
respondeu num berreiro furioso:
"Não, não! Solta‑nos antes Barrabás!"
‑ Que aliás era um grande criminoso.
Autorizou
Pilatos que O prendessem
e fosse, injustamente, maltratado.
Os soldados, então, entrelaçaram
uma c'roa de espinhos que, sem dó,
a Jesus na cabeça colocaram.
A seguir sobre
os ombros lhe puseram
um vil manto vermelho e, por escárnio,
se aproximavam d'Ele, proferindo:
"Viva o Rei dos Judeus!" E, com escarros,
o rosto tão augusto iam cobrindo.
Uma vez mais
Pilatos insistiu:
"Qual foi o crime que Ele cometeu?"
E a multidão, com fúria, gritava:
"Seja crucificado, sem demora!"
Então, Pilatos água pede e lava
as mãos em
público, dizendo ao povo:
"Não serei responsável pela morte
deste Homem. Crucifiquem‑n'O, pois eu
razão nenhuma encontro para tal."
E ordens p'ra que O levassem concedeu.
Tiravam‑Lhe da
mão direita a cana
e davam‑Lhe com ela na cabeça.
Depois d'Ele, sem dó, tanto troçarem,
Lhe vestiram a roupa em vez do manto
e O levaram p'ra então crucificarem.
Partiu em
direcção a um lugar,
que em língua hebraica se chamava Gólgota,
mas que era conhecido por "Caveira",
levando às costas uma cruz pesada,
feita de um grosso tronco de madeira.
Quando iam a
caminho apareceu
um homem da cidade de Cirene,
que Simão se chamava, e o obrigaram
a transportar a cruz do Nazareno
e no local nela Jesus pregaram,
também
crucificando outros dois homens,
um à sua direita e outro à esquerda,
a quem chamaram "bom e mau ladrão",
porque sendo uns patifes refinados,
se arrependeu um deles, outro não.
Retiraram‑Lhe
as vestes os soldados,
que foram repartidas entre si,
depois de O terem lá crucificado,
e sobre a túnica deitarem sortes.
Um letreiro na cruz foi colocado,
escrito em
várias línguas, que dizia:
"Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus!"
Aos pés da cruz estava sua Mãe,
o discípulo que Ele tanto amava
e vários seguidores seus, também.
Ao vê-los Ele
diz em voz magoada:
"Amigo predilecto, eis tua Mãe!
Aí tens, Mãe querida, o filho teu!"
Então, Ela habitou em casa dele.
Isto dito, Jesus emudeceu...
Depois do
meio‑dia toda a terra
de um manto se cobriu de escuridão
e, às três horas da tarde, de repente,
Jesus, que há tanto tempo agonizava,
bradou em voz de súplica, potente:
"Meu Deus, meu
Deus, por que me abandonaste?!"
Todos pensaram que Ele delirava.
Tinha sede. Uma esponja, então, molharam
numa vasilha de vinagre e aos lábios,
na ponta de uma cana, lha levaram.
Disse após o
vinagre ter provado:
"Está tudo cumprido!" E, lentamente,
inclinou a cabeça e expirou...
A cortina do templo, nesse instante,
a meio, de alto a baixo, se rasgou;
houve um
tremor de terra assustador;
as portentosas rochas estalaram;
muitos e muitos túmulos se abriram
e tantos mortos, que faziam parte
do povo do Senhor, deles saíram!
Ao verem tudo
quanto aconteceu
os soldados romanos, que O guardavam,
encheram‑se de medo e murmuravam:
"Era o Filho de Deus, não haja dúvidas,
conforme os seguidores proclamavam!"
Um dos
soldados Lhe espetou a lança
no peito e jorrou logo sangue e água.
Quando a noite chegou, apareceu
um homem abastado, natural
de Arimateia, a quem Pilatos deu
licença p'ra
tirar da cruz o corpo.
Ao seu encontro veio Nicodemos,
com grande quantidade de perfume,
e envolveram Jesus com ligaduras
de linho puro, como era costume
entre os
Judeus, ao sepultar os mortos.
Para um sepulcro próximo O levaram,
que 'inda não tinha sido utilizado,
e nele o corpo de Jesus puseram,
antes da luz do dia ter chegado...
Bem cedo, no
domingo de manhã,
Maria Madalena, ao ir ao túmulo,
viu retirada a pedra que o tapava
e aos discípulos foi dizer, à pressa,
que o corpo de Jesus lá não estava...
À tarde, reunidos
no Cenáculo,
onde, com medo, estavam escondidos,
Jesus no meio deles assumou
e proferiu: "Convosco esteja a paz!"
Depois, as mãos e o peito lhes mostrou.
Por verem o Senhor
rejubilaram.
Jesus lhes disse, então, segunda vez:
"Convosco esteja a paz!" E acrescentou:
"Ide por todo o mundo a Boa Nova
anunciar, pois como Me enviou
o Pai do Céu,
também Eu vos envio".
Depois soprou sobre eles e lhes disse:
"Agora o Santo Espírito recebam:
a quantos concederem o perdão,
são perdoados; aos que o não concedam,
perdoados,
portanto, não serão.
Jesus, mais algum tempo, alegremente,
entre os Apóstolos permaneceu.
Ao som de cantos e aclamações,
por fim, se eleva em corpo e alma ao Céu...
Há dois mil anos
já que aconteceu,
mas ficou‑me gravado na memória
esse percurso extraordinário,
que começa na gruta de Belém
e acaba com a morte no Calvário!
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José Fernandes da Silva, poeta popular residente em Vila Verde e professor de Educação Musical, lança hoje o seu terceiro livro de poesia, intitulado "RELICÁRIO", depois de "COFRE DE TERNURAS" e "CANÇÕES DA MINHA ESCOLA".
RELICÁRIO é um livro de sabor confessional, no qual o Autor espalha como poldras no avaro caudal da vida, evocações, saudades e encantos, que nos levam até à outra margem do ser; a esse cais onde fundeiam esperanças de velas enfunadas à mistura com ilusões naufragadas no lodo da cruel evidência. Em RELICÁRIO o Autor regressa a um tempo perdido e do qual guarda ciosamente preciosos pedaços ou relíquias em forma de memórias reconfortantes, sensações que afloram ainda à tona da consciência, encantamentos antigos e que a distância começa a embotar. O Autor revela‑se, entrega a sua alma ao leitor, fiel depositário de uma luz que brilha na solidão da noite na posse desse imaterial relicário entra num mundo por trivialidades pueris, de suaves lirismos, de testemunhos e confissões, de saudade, de sensualismo pictórico, de quadras panfletárias, de místicos hinos, de incontidos idealismos, de enternecimento com o drama alheio, de rituais epicuristas.
Nem sequer faltam as odes ao alecrim, mítico arbusto da fantasia popular, ao loureiro, ao rouxinol, ao cuco, à rola e até à montanha e loas às estações do ano e às festas principais da cristandade. Em FANTASIAS o Autor concretiza uma poesia mais realista, mais denunciadora de um amor físico, carnal, alimentado pelo fogo da paixão, chama que se dilui na quimera da felicidade. E é com o travo agridoce da ilusão, depois de escoado o cálice da angústia, que os apaixonados seguram com as mãos a tremer, que o Autor fecha de novo o seu RELICÁRIO e que, por momentos breves, abriu à nossa sensibilidade de confidentes eleitos pela musa do Poeta.
José Fernandes da Silva é, assim, um poeta, de talhe clássico, que raramente abandona o labor rimático e está predestinado a fazer a gravação em verso das suas experiências pessoais com o auxílio do poderoso óculo da memória, imagens que se purificam no filtro da sensibilidade tênsil e da emoção assumida por inteiro.
Fernando Pinheiro
(Na apresentação de "RELICÁRIO" -
Salão Nobre da Câmara Municipal de Vila Verde -
1 de Maio de 1993)