À minha Mulher
Aos meus Filhos
No beijo em que
vos enlaço,
com ternura, muito
amor,
vai também todo o
labor
destas relíquias,
que eu faço!
Craveiro florido,
num vaso qualquer,
por mim escolhido,
um dia, p'ra ser
aquele pedaço
tão belo e
querido,
que beijo e que
abraço
- a minha Mulher!
Ia passando o tempo acompanhado
por frustrações, anseios, nostalgia:
tu vieste fazer‑me companhia,
resolvida a ficar sempre a meu lado.
Contigo me chegou a f'licidade,
por entre mil carícias, mil surpresas,
e pude constatar que eram certezas
o que eu pensava fosse veleidade.
Das muitas vezes que nos irritamos,
convicto cada um de ter razão,
em qualquer coisa beneficiamos,
pois resulta daí a conclusão
de que, afinal, bastante nos amamos
e tem que haver o mútuo perdão...
'Inda quando menino me apartei
dessas coisas que me eram tão queridas:
as diversões sadias, coloridas,
que no meu relicário arrecadei!
Mas foi tão pouco o tempo que nem sei
porque não cicatrizam as feridas
das horas de lazer, apetecidas,
que pela vida fora bendirei...
Então será por isso que 'inda hoje,
ao ver os pequeninos não parar,
um só momento, tantas diversões,
eu penso que é o tempo que lhes foge,
também para mais tarde recordar
esse lindo rosário de ilusões...
Recordo‑me daquela pequenina
que uma linda poesia recitou,
com uma doce voz, tão cristalina,
que aplausos calorosos arrancou.
Outras vezes, por isso, a convidaram
para que fosse ao palco recitar;
e até mais tarde se deliciaram
com dramas que ela veio a interpretar.
Era perfeito aquilo que fazia;
mas, sem recursos, quando a adolescência
assomou, viu, com mágoa, que teria
de lutar, p'ra suprir essa carência.
E trabalhou na mira de atingir,
pela vida, uma boa posição;
contudo, soçobrou, sem conseguir
jamais concretizar sua ambição...
Certa vez, encontrei‑a, miserável,
com um filho no colo, outro p'la mão:
apenas lhe falei do agradável,
mas desatou num choro em convulsão!
O rei d'alegrias
ao longe já morre
e todos os dias
as ave‑marias
ressoam na torre!
Regressa ao seu lar
quem tanto lidou,
a fim de cear
e então repousar
o corpo, que andou
o pão a amargar,
desde antes o sol
na terra raiar,
até vislumbrar
segundo arrebol!
Vai tudo dormir,
na noite que avança,
com fé a pedir
que sempre o Porvir
só traga bonança!
Vermelha flor, num jardim,
um menino quis colher,
mas retira, dolorida,
incauta e magra mãozinha,
pelos cardos agredida!
Vai a casa, num instante,
e volta com um cutelo,
para cortar, cerce,o cálix
e mais o que ostenta belo...
Toma o fruto da façanha,
alegre, bem triunfante,
e põe‑no num jarrão novo:
ah! extasia o semblante
ao olhar, deliciado,
pétalas de viva cor
e mais o verde, em redor!
Depois de um dia passar
vai ele a flor visitar:
Mas... Jesus, que decepção!
Jaz pálida no jarrão,
onde na véspera a pôs
o menino, sorridente,
triste agora e descontente...
O que ontem era só vida,
hoje é desolação, morte!
E o petiz, estupefacto,
chora, chora, ao ver a sorte
que a vermelha flor tivera...
De tudo a mãe se apercebe
e, com ternura, lhe dá
este ensinamento breve:
"Meu filho, tu desprezaste
os cardos, que magoavam,
protectores do pezinho,
que lhe sustentava a vida
com amor e com carinho.
É preciso, p'ra colher,
sempre saber escolher!"
São três lírios,
adorados,
que a inocência
ainda guarda
com sublime amor
regados
p'la mãe, que não
vê mais nada...
Vou pensando no
Futuro
que a Vida lhes
irá dar:
mas que seja um
viver puro,
com vontade de
lutar
pela feliz
construção
da paz e mundo
melhor,
onde só vença a
Razão,
a Liberdade, o
Amor...
Que sempre façam o
Bem
e mantenham porte
nobre,
porque muito rico
é quem
dá do pouco a
qualquer pobre...
(Para a música de Schubert)
Que noite
calma,
puro luar!
Que paz
me conforta a
alma!
Depois de um
dia
de labutar
apraz
tão doce
harmonia...
Ao longe, nos
choupos, canta,
até que nasça
o sol,
o meigo
rouxinol...
E murmura a
fonte mansa,
com termo
marulhar,
baladas de
encantar!
Ligeiro vento
vem afagar,
por fim,
o meu
pensamento!
Quanta alegria
faz despertar
em mim
tão doce
harmonia...
Corre, sereno, o ribeiro
a caminho do mar
e nele, a
deslizar,
vai um barquinho
veleiro,
donde saem
canções,
que alegram
corações.
Noite amena de
encantar:
doce marulhar
das águas. De luar
de prata.
Sinfonia sem par
de tudo a ensaiar
a serenata...
Caem grandes
farrapos de cor branca,
ficando tudo com
aquela cor:
feliz, 'squecendo
o frio, uma criança,
muitas coisas
modela com primor!
A Natureza assim
vestida espanta
o perspicaz olhar
desse pintor
que mudo,
retrocede, pára, avança,
a admirar o
magnífico labor!
Qualquer pintor se
espantaria ao ver
um quadro,
fascinante, ao natural,
de um belo
colorido, sem igual...
Apenas um Autor
podia ser
digno de rica
paisagem de neve:
Deus, a quem,
quanto existe, tudo deve.
I
Trago um grito
a explodir
entranhado na
garganta:
"Acredito num
Porvir
de Liberdade e
Bonança"!
II
Há tanta
estrela no céu,
cujo Destino é
brilhar:
só de escuro
trajo eu,
sem me poder libertar...
III
Suspiros, quem
os não tem
dispersos em
qualquer lado?,
sempre à
espera, a ver se vem
o fruto tão
desejado!
IV
Só depois que
ela se foi,
levando‑me o
coração,
é que sinto e
é que dói
a gangrena da
paixão!
V
OiÇo‑vos: "É
lindo tudo"!
Sei que nem
tudo é beleza.
Triste, sofro
e fico mudo,
por não ver a
Natureza!
VI
Já não sei se
vale a pena,
às vezes,
tanto lutar,
porque a Vida
é tão pequena
e foge sem
avisar.
VII
Sentindo os
filhos brincar,
a rir,
despreocupados,
medito como
lhes dar,
vida fora, mil
cuidados...
VIII
Põe na minha a
tua mão
e deixa‑os lá
murmurar:
muito dói a
ingratidão
de quem nos
devia amar...
IX
De uvas
espremi um bago
na boca do meu
Amor
e senti o doce
afago
de um beijo
todo calor.
X
Baixem‑me o
verde loureiro,
onde canta um
rouxinol,
que eu quero
ser o primeiro
a sentir
chegar o sol...
XI
Que prazer
sempre me dá
o meu pequeno
Arturinho
quando, meigo,
diz: "Papá,
senta‑me no teu colinho!"
XII
Mesmo que os
filhos mal façam
sempre lhes
queremos bem,
porque entristece
os que passam
sem afagos de
ninguém!
XIII
Deixai-me agora
gritar
o poema que
sufoca,
antes de me
amordaçar
as ideias e a
boca!
Quantas vezes
me ponho a meditar
em tantos
conterrâneos, que morreram
assim como em
amigos, que deixaram
o luto e as
saudades a pesar...
São tantos que
percorrem meu pensar
e páro a ver a
vida que tiveram,
fazendo o Bem,
ou Mal que praticaram,
e se acaso
estarão em bom lugar...
Mas só Deus
pode responder, bem sei,
às
interrogações que me perseguem,
para ter a
certeza qual a lei
que, um dia,
nos dará a salvação:
contudo, as
confusões não me conseguem
desviar do
caminho de cristão...
Muitas vezes
desanimo
e busco,
aflito, um arrimo!
E é com amor
acendrado
que, nas horas
de desânimo,
eu medito nos
tormentos
e na morte de
Jesus,
rogando‑lhe
que me ajude
a transportar
ao Calvário
a minha pesada
cruz...
1
Se
pressentires a Morte
em volta de ti
rondar
está a
fazer‑te a corte,
para a vida te
roubar...
Se o Bem
fizeste, não temas,
que a salvação
alcançaste,
mas teme as
terríveis penas,
se sempre o
Mal praticaste...
2
Não tenhamos
presunção,
que a Morte
vem de repente
de foice certa
na mão
para, de golpe
inclemente,
ceifar a Vida,
tão bela,
que nos tinha
sido dada
para termos
conta nela
e ser bem
acarinhada...
Se assim
fizemos foi bom
e medo não
deve haver
da foice certa
na mão,
que seus
frutos vem colher!
3
É triste, tão
triste a Morte,
venha Ela como
vier:
punir‑nos, ou
dar‑nos sorte
pelo balanço
que houver
do que fizemos
na Vida...
Arriba sem
avisar
e ceifa a jóia
mais querida
que ao nascer
Deus quis legar!
Os sinos, ao longe, dobram,
dolentes,
tristes: dlão, dlão!
E seus gemidos
provocam
uma dor no
coração,
pois não se
sabe a razão
das badaladas
que ecoam!
Quem seria que
passou
ao outro lado
da Vida?
Um jovem que
não gozou
a fatia
concedida
por Deus, de
tudo Senhor,
doada só por
amor?
Ou talvez
noiva recente,
que no auge de
alegrias
é chamada, de
repente,
a dar contas
dos seus dias
e do que fez,
Bem e Mal,
na busca de um
Ideal?
Teria sido uma
mãe,
que filhos
amamentava
e assim os
deixa também
entregues ao
Deus‑dará!
E o narido,
que a adorava,
quanto não
pranteará?!
Seria um fiel
marido,
que
trabalhava, contente,
para o
sustento da casa
e deixa,
desprotegido,
o lar e a
mulher rasa
de lágrimas
comoventes?!
Mas talvez
fosse um velhinho
que nada mais
esperava
deste mundo,
onde gozou
ternuras,
amor, carinho
e certamente
pensou
que a sua vez
não chegava?...
Quem foi não
sei, mas os sinos
(que tanto
gosto de ouvir
quando
repenicam hinos
a quem acabou
de vir
das entranhas
para o mundo)
dobram,
tristes, lá ao fundo...
Num Inverno
distante ela chegou
e há pouco, num
Outono, então, partiu:
só saudades e
mágoas deixou
àqueles por quem
tanto amor sentiu!
Há tanto tempo que
te foste e não voltaste,
embora eu te
esperasse, mas sem esperança...
Só depois soube
como tudo aconteceu
e percebi que
havia na tua existência
a simbiose feita
do ateu e crente.
Mas não foi a
segunda que te transportou
ao beco onde p'ra
sempre ficaste cativo:
foi a falta de fé
no dia de amanhã
que te precipitou
no abismo terrível,
roubando‑te ao
convívio de quem te estimava...
Não sou, de modo
algum, um sebastianista
e creio,
firmemente, que quem vai não volta.
todavia, gostava
que pudesse haver
uma excepção: que
tu regressasses à vida
e então, da tua
boca, viesse a verdade...
Loucuras,
ambições, quimeras que me habitam,
porque eu bem sei
que tu jamais podes voltar!
Não cansarei
de afirmar
que existe
muita injustiça:
uns matam‑se a
trabalhar
e outros vivem
da preguiça!
Penso que
devia haver
em tudo mais
igualdade:
tendo todos
que fazer,
punir a
ociosidade!
Todavia, ao
constatar
que o Mundo
não 'stá direito,
nas voltas que
lhe quis dar
achei‑o mais
imperfeito!
Por isso, não
vale a pena
eu quer-lo
endireitar,
pois tenho a
certeza plena
de nada
remediar.
Coitado de
quem é pobre
e para viver
mendiga,
pedindo um
tostão, um cobre,
à fraternidade
amiga...
E pede só um
tostão!
Humilde pedir
o seu!
Toca fundo o
coração
pedi‑lo em
nome do Céu!
Quando
pequeno, dizia
o meu
professor na escola,
que todo o
aluno devia,
vendo um
pobre, dar‑lhe esmola!
É agradável
fazer
(sempre sem
saber a quem),
aos que pedem
p'ra viver,
desinteressado, o Bem...
Se a Vida
sempre nos desse
tudo quanto
desejamos
por certo não
tinha int'resse
os momentos
que passamos
a resolver os
problemas
que a cada
passo aparecem
‑ os
verdadeiros dilemas,
que matam e
que entontecem...
Mas, se
problemas houver,
p'ra resolver,
dia-a-dia,
cada conquista
vai ser
um momento de
alegria!
Roda a
Vida, roda a Sorte,
tudo
roda sem parar,
até vir
o Fim, a Morte,
pôr
termo a tanto lutar.
Vale,
porém, sempre a pena
a luta
continuar,
que a
Vida é dura e pequena
e é
preciso conquistar
aquilo
que desejamos
de bom
para o dia-a-dia:
nessa
medida, alcançamos
bem-estar e alegria!
Confesso, com
convicção,
que muito te
adoro e quero
e assim, do
teu coração,
reciprocidade
espero...
Sei que és o
Tudo na vida
que sempre vem
confortar
uma zanga, uma
ferida,
p'ra poder
cicatrizar...
Confesso que
mais amor
te dei, porque
tu me deste
três
Primaveras em flor,
tesouro que me
entontece...
Desse tempo em
que a pobreza,
fortemente, me
marcou
eu recordo,
com tristeza,
os males que
ela causou:
Falta de pão,
de agasalho,
de lenha,
calor, dinheiro
e para meu
pai, trabalho,
por toda a
parte falheiro...
Muitas vezes a
vontade,
sôfrega, que
me assaltava
de ter ‑ juro
que é verdade ‑,
petiscos, que
eu adorava
e que se alguém o soubesse
ridículo me
chamava
e por não
gostar dissesse
que daquilo
não provava...
Com bem pouco
contentava
meu estômago
vazio:
mas assim
continuava
a ter fome e
sentir frio...
Descalço ia
para a escola,
com neve, ou
chuva, ou vento,
transportando
na sacola
um risonho
pensamento
que uma página
ilustrava
do meu livro,
tão querido:
"Estuda" ‑
assim começava -,
"que sendo
homem instruído
melhor Futuro
terás..."
Para depois
concluir:
"Com trabalho
chegarás
onde jamais
pensaste ir..."
E a verdade é
que cheguei,
com muita
perseverança,
onde nunca
imaginei
no bom tempo
de criança...
Ó tempos da
minha Infância,
onde estais,
que vos desejo?
Vinde matar
esta ânsia,
que me abrasa,
me sufoca,
para que
rebente o beijo
que, opresso,
me sela a boca!
Oh!, como
sinto saudade
do meu tempo
de Menino,
em que eu, de
tão tenra idade,
alegre, feliz,
sadio,
projectava o
meu Destino,
para ser homem
de brio...
Mas tudo se
transtornou
nas voltas que
deu a Vida:
o brio, porém,
ficou,
bem assim como
a 'sperança
e a fé sã não
foi perdida
Belas imagens me
assaltam
desse bom tempo em
que eu via
a Primavera
florida,
alegre,
reverdecida!
Frutos
amadurecidos,
rosados,
apetecidos!
E tudo a
resfolegar
de sã e ridente
vida!
As laranjeiras,
formando
castelos
amarelados!
As videiras,
sustentando
lindos cachos,
apinhados!
Os brincos pretos,
vermelhos,
ou de qualquer
outra cor,
suspensos nas
cerejeiras!
Figos a desafiar
uma subida às
figueiras!
Tapetes de
gipsofila
a ornamentar os
montes,
bem como uma
multidão
de lindas flores,
vistosas!
E a fragrância do
perfume
exalado por
mimosas!
Afinal, tudo era
belo
nesse tempo de
criança
em que eu podia
espraiar
meus olhos por
toda a parte
e, feliz, apreciar
os magníficos
tesouros,
que ornavam a
Natureza...
Na vida não há só
louros:
há mil cardos
semeados
nos caminhos que
trilhamos...
E agora lembro a
beleza
das imagens que
povoam
meus olhos
martirizados...
Com belo luar
de prata
repousei sob
um salgueiro
a ouvir a
serenata
do marulhar de
um ribeiro...
Não eram
águas, somente,
que a noite
tornavam bela:
também havia o
cadente
olhar de
distante estrela...
E a brisa, bem
de mansinho,
não se quis
dissociar,
com um sopro
levezinho,
seu nocturno a
ensaiar!
E o belo
desafiar
com as águas
de cristal
do rouxinol a
trilar
magnífica
pastoral!
E da noite a
grande orquestra
de tanta voz a
cantar,
qual animada
palestra,
que vale a
pena escutar!
...E as águas
sempre a correr,
sob a bênção
do luar
e eu, bêbedo
de prazer,
de tudo
absorto, a sonhar...
Disse adeus à
minh'aldeia,
a querida
Lajeosa,
e para sempre
guardei‑a
numa paixão
dolorosa...
Foram anos que
não voltam
os que então
nela passei
e que agora de
mim soltam
suspiros, que
bendirei...
Recordo‑a a
cada momento,
nas horas
tristes ou boas
e tenho no
pensamento
todas aquelas
pessoas
que eu estimo
e são amigas
(tenho provas
de que o são),
que as
amizades antigas
alegram‑me o coração,
cada vez que
nos juntamos
meia dúzia de
amigos
e, felizes,
recordamos
esses belos
tempos idos...
Montes de
recordações
que nenhum
esquecerá
e às futuras
gerações
com saudade
contará...
Por isso,
sempre que posso,
uma visita lhe
faço
e me sinto
muito moço
ao levar‑lhe o
meu abraço...
E assim, ó
terra querida,
mesmo longe,
não te esqueço,
pois que em ti
me deram vida
e me embalaram
no berço...
Pequenas
coisas, saudosas,
desses tempos
que lá vão:
são
lembranças, carinhosas,
que guardo em
meu coração!
Tenho saudade,
saudade...
da minha
pequena aldeia,
onde passei
belos dias
e noites de
lua‑cheia
da saudosa
mocidade,
repassada de
alegrias...
Tenho saudade,
saudade...
de quando
podia ver
entrar no meu
quarto o sol
e escutar, com
prazer,
p'las noites
de claridade,
trinados de um
rouxinol...
Tenho saudade,
saudade...
da casa pobre,
onde um dia
cheguei em
certo Janeiro
e da Bouça,
que seria
minha alcunha,
de verdade,
no meu lugar
do Regueiro...
Tenho saudade,
saudade...
do pequenino
ribeiro,
que, ao fundo,
passa na ponte.
Do Tapado e de
Espinheiro,
onde pela
quente tarde
ia beber água
à fonte...
Tenho saudade,
saudade...
das noites
enluaradas
em que nas
eiras havia
as alegres
desfolhadas
e da sã
simplicidade
de quem lá
aparecia...
Tenho saudade,
saudade...
dessas noites
de serão,
em que em
famílias amigas,
que guardo no
coração,
recolhi tanta
amizade
e ouvi
tradições antigas...
A aldeia que
me foi berço
e os tempos de
tenra idade,
por mais que
queira, não 'squeço,
tenho saudade,
saudade...
O regato
corre, corre,
em busca do
lindo mar
e quando entra
nele morre,
pois deixa de
marulhar!
De dia e noite
a correr
pelas
planícies, por vales,
faz o Moinho
moer
pão, que acode
a tantos males.
Corre, pois,
belo regato,
verdes campos
a regar,
que eu te fico
muito grato
por quanto me
podes dar!
Canta, moinho, a canção
de alegria,
porque dás
farinha p'rò
nosso pão
e mil fomes
matarás.
É tão belo o
teu girar,
rodísio, que
não te cansas
de em espuma
transformar
as correntes
águas mansas.
Que agradável
é dormir
uma noite num
moinho,
olhando da mó
cair
brancos
farrapos de linho.
Ó moinho
abençoado,
bem haja o teu
trabalhar:
jamais te
sintas cansado
de a todos
alimentar.
Lembro‑me,
quando pequeno
(há que tempos
isso vai
e que saudades
ficaram),
de construir
uns moinhos
com bugalhos e
pauzinhos,
onde houvesse
um curso de água,
que eu
desviava, feliz,
de regos que
iam cevar
os campos,
hortas, quintais
e davam para
brincar...
Ficava ali,
deleitado,
contente,
absorto, sonhando,
o brinquedo a
contemplar
e, com muito
orgulho, a vê‑lo,
no seu
trabalho, girar...
Como ficava
bonito
o meu pequeno
carrinho,
construído de
uma casca,
extraída de um
pinheiro!
Era todo o meu
carinho,
burilando com
a faca
um cabeçalho,
um fueiro,
É um álbum de
saudades
de mil carrinhos,
perfeitos,
de amor e de
cascas feitos,
que outrora,
então, povoaram
a minha risonha
infância
e ainda não se
esfumaram...
Que pena sinto e
me dói
de não sentir essa
ânsia
de procurar um
pinheiro,
tirar‑lhe cascas,
fazer
os carrinhos tão
queridos,
que tive quando
criança
e valiam mais
dinheiro
que todos os
artifícios,
que pejam o mundo
inteiro...
Chamávamos‑lhe
"estaleiro",
porque dava
estalos, feito
de um pouco de
sabugueiro,
extraindo‑lhe o
miolo:
ficava um pequeno
tubo
onde, de estopas
de linho,
metíamos duas
buchas,
separadas, para
haver
entre elas grande
pressão...
Em seguida, com um
pau,
se empurrava uma
das buchas,
para que a outra
saltasse,
provocando a
explosão...
Tão simples, tão
delicado,
este brinquedo de
infância!
Ele faz parte do
álbum
de ternuras, de
emoção,
de amor, de sãs
lembranças,
que guardo em meu
coração...
Recordo, com
pouca idade:
uma latinha de
folha,
ou um copito
de vidro,
com água,
muito sabão,
uma palhinha
qualquer,
donde,
soprando, surgia
um colorido
balão!
Que lindos os
meus balões!,
parece que
ainda os vejo
a desfazer‑se
no ar
e sinto em mim
o desejo
de voltar a
esses tempos
das bolinhas
de sabão,
que tanto gozo
me deram
e 'inda agora
me embriagam,
ternamente, o
coração...
Era tão bom ir
colher
amoras pelo
silvado,
para, com
gula, as comer
ou então,
deliciado,
com elas vinho
fazer!
Num copo, ou
numa tigela
as amoras
esmagava:
com açúcar
adoçava,
para surgir
uma bela
bebida, que me
encantava...
Oh que lindo
papagaio,
por mim feito
de papel:
no alto, a
voar, olhai‑o,
preso à mão
por um cordel!
Quem papagaios
não fez,
coloridos, de
cartão,
e com pena,
tanta vez,
os deixou
fugir da mão?!
Este, porém,
que hoje fiz
vou, com
força, segurá‑lo,
porque me
sinto feliz
e me dá prazer
olhá‑lo!
Alecrim,
alecrim do
monte,
levo um ramo
ao peito
quando vou à
fonte!
Alecrim,
tu como
ninguém
sabes dos
segredos
que eu conto
ao meu Bem!
Alecrim,
de bela cor
d'oiro,
posto num
raminho
vales um
tesoiro!
Alecrim,
semeado em
jeira,
no campo, no
monte,
ai que bem que
cheira!
Alecrim,
colho um ramo
verde,
quando ao pé
da fonte
vou matar a
sede!
Alecrim,
cheiroso
alecrim,
aos molhos,
bem fresco,
formas um
jardim!
Alecrim,
doirado,
florido,
rescende,
embriaga
todo o meu
sentido!
Um amor que me
encantasse
da minha
janela via,
se o loureiro
me deixasse
ver tudo
quanto eu queria!
Loureiro,
verde loureiro,
no meio tanta
ramada:
não deixas ver
o fagueiro,
lindo olhar da
minha amada!
ó loureiro,
donde ouvia
um rouxinol a
trinar
canções belas
de alegria
pelas noites
de luar!
Há que tempos
isso vai,
hoje não sei
se morreste:
sobre o
tanque, suspenso, ai!,
que prazer
sempre me deste!
Tenho saudades
da aldeia
e coisas do
meu lugar,
que me não
saem da ideia
e causam um
bem‑estar...
Feliz rouxinol
por lindo luar
até vir o sol
tu sempre a
cantar!
Cantor
pequenino,
artista
invulgar,
teu canto, teu
hino,
quem pode
igualar!?
Desliza o
ribeiro,
feliz, a
'scutar,
de um choupo,
ou salgueiro,
canções de
embalar!
Suplico‑te:
canta
baladas sem
par,
com essa
garganta
de prata a
trinar!
Ó montanha,
aos céus erguida,
como quem quer
num abraço
se assenhorear
da vida
que compõe
todo o Espaço.
Montanha,
despida, agreste,
a contemplar,
nas planuras,
muito do que
já tiveste:
belo manto de
verduras.
Lugar do gelo
e da neve
para a prática
do esqui;
do alpinista,
que escreve
mil aventuras
em ti.
Ó montanha das
nascentes
dos grandes
lagos e rios
que, velozes,
em torrentes,
fazem sentir
calafrios.
Ó
montanha dos
penedos,
onde se
esconde o pastor
com seu
rebanho e segredos
do seu lar, do
seu amor...
Ó montanha,
tentação
de quantos
querem e amam
a calma da
solidão
e por ar bem
puro clamam.
Que bem canta
o passarinho,
nas ramagens
do quintal,
com ternura,
com carinho,
como nunca
ouvi igual!
Dá vontade de
apanhá‑lo
e prendê‑lo,
sem demora,
para ter esse
regalo
de o ouvir a
toda a hora!
Mas pensando
mais um pouco
concluí que
era maldade
um desejo
assim tão louco:
retirar‑lhe a
liberdade!
Nas lindas
manhãs de Sol
tudo é alegria
e luz;
crianças,
felizes, cantam:
trá‑lá‑lá, trá‑lá‑lá‑lá!
Olhai as
plantas despidas
do fato da
Primavera
e ouvi as
aves, que piam:
piu‑piu‑piu,
piu‑piu‑piu‑piu!
Depois que
acaba o Outono
sucede o
Inverno rude;
crianças
tremem de frio:
ah‑ah‑ah,
ah‑ah‑ah‑ah!
Vem de novo a
Primavera
vestida de
muitas cores
e a abelha, em
cada flor, zumbe:
z‑z‑ze,
z‑z‑z‑ze!
Findo o Verão,
surge o Outono,
com as
vindimas, desfolhadas,
belos
serões... mas o adorno
vai‑se das
plantas enfeitadas!
Fica despida a
Natureza:
caem as
folhas, frutos, flores;
o vento sopra
com tristeza;
os troncos
torcem‑se com dores!
Magustos, ai
que regalo!,
no dia de S.
Martinho:
vamos todos
festejá‑l'O
com castanhas,
mas sem vinho!
Porque hoje a
festa é tamanha,
não podemos
esquecer,
já que não
falta a castanha,
assadinha,
p'ra comer!
Felizes, às
gargalhadas,
vamos, pois,
nos divertir:
mesmo com
caras pintadas
não deixemos
de sorrir!
Na vida nós
lembraremos
estes dias de
emoção,
que para
sempre teremos,
com amor, no
coração!
Que bom é ter
e contemplar
lindo pinheiro
do Natal!
Milhões de
luzes quero ver
sempre a
apagar e a acender!
À tua sombra
quero pôr
o meu
presépio, com amor!
Sob os teus
braços, a enfeitar,
os mil
brinquedos de encantar!
Sob os teus
ramos, a pender,
os meus
presentes quero ver!
Repica,
alegre, o sino,
corramos a
Belém,
a ver o
Deus‑Menino
e a Sua feliz
Mãe!
Sigamos a
estrela,
que à gruta
nos conduz,
na noite santa
e bela,
que ao mundo
deu Jesus!
Na gruta de
Belém
o Salvador
nasceu:
louvando o
Filho e Mãe
há cânticos no
céu!
Nas palhas,
sossegado,
'stá a dormir
Jesus
e brilha em
todo o lado
uma divina
luz!
E lá do
Oriente
chegam os reis
doutores:
com mil e um
presentes
se juntam aos
pastores!
Vi chegar a
Primavera
com ramos
verdes e flores:
que beleza!
Quem me dera
vestir assim
lindas cores.
Oiço a alegre
passarada
chilrear
lindas canções
pela fresca
madrugada
e à noite
pelos serões.
Chegou o cuco
e a rola,
a poupa e as
andorinhas
e ver os
montes consola
com tapetes de
florinhas.
E não há outra
estação
cheia de graça
e beleza:
conforta-me o
coração
ver assim a
Natureza!
É mais um dia
de Páscoa
que na minha
aldeia passo:
há enfeites,
muitas flores,
atapetando os
caminhos,
para passar o
Compasso...
À frente, uma
campainha
indica que vai
chegar
Jesus Cristo a
cada casa,
para todos,
com fervor,
a sacra Imagem
beijar.
São trocados
aleluias
com as bocas a
sorrir
e o pároco
abençoa,
benze e pega
no hissope
para
água‑benta aspergir...
E todos
confraternizam,
casa a casa a
visitar,
saboreando
iguarias,
que por todo o
lado estão
a gula a
desafiar!
É dia de festa a sério:
há verdes,
tudo florido,
tudo cheirando
a frescura,
por esmerada
limpeza,
que há muito
não tinha havido!
E depois, ao
fim da tarde,
rematando a
devoção,
unem‑se todos,
que o dia
festivo vai
terminar
com a Cruz em
procissão...
Ao falar na
minha terra
fico‑me a
pensar sozinho
que a Páscoa
que descrevi
não é única, é
igual
em toda a
parte do Minho:
Mil enfeites;
muitas flores;
a Cruz, que é
dada a beijar;
a procissão à
noitinha;
os aleluias
trocados;
toda a gente a
se saudar...
Cu‑cu, cu‑cu,cu‑cu...
Há muito que
estava à espera
de ouvir o
cuco cantar,
porque sei que
a Primavera
também vai
desabrochar!
Na flauta,
então, eu imito
as notas do
seu cantar:
muitas vezes
as repito
para quem
apreciar!
Todavia, é
diferente,
ao pretender
imitá‑lo,
que só o
senti‑lo presente
é para nós um
regalo!
Depressa está
de partida
o esmerado
cantor,
pois vai
procurar guarida
em outro clima
melhor!
Vou, então,
ficar à espera
de ouvi‑lo,
outra vez, cantar,
o que só na
Primavera,
contudo, terá lugar...
Geme a rola no
pinheiro:
que bom
podê‑la escutar!,
como o vento,
passageiro,
muito de leve,
a soprar...
Costuma vir
por Abril,
mês em que
pelas aldeias
"canta o carro
e o carril"
nas terras de
flores cheias...
Trru‑trru,
Trru‑trru... Eis que canta,
nos ramos, a
meiga ave,
num suspiro de
garganta,
inimitável,
suave...
Diz um popular
rifão:
"Quando a
rolinha cantar
pega numa
cesta, então,
vai os campos
semear"!
Para alegrar
corações
Vamos, com
força, cantar
todas as
lindas canções
que nos apraz
recordar!
Eu vou cantar
p'ra todos vós, com alegria,
uma canção,
que é uma simples melodia:
e queria que a
cantassem
e comigo se
alegrassem!
Cantai,
cantai, que quem o faz seu mal espanta
e não precisa
ter p'ra tal boa garganta:
É por isso que
eu repito
que em
conjunto é mais bonito!
Forte muralha,
bem unidos, formaremos
e é mais certo
que na vida venceremos:
vamos, pois,
uniras mãos
e entender‑nos
como irmãos!
FANTASIAS
1
Daquela boca,
sorrindo,
um beijo vinha
saindo...
De leve e
terno poisou,
mas em seguida
voou,
temendo ficar
cativo
num laço
seguro e vivo!
Apenas ficou o
nada
da leve pena
deixada
cair por ave
ligeira
na sua breve
carreira:
A ave, veloz,
passou
e o vento logo
guardou
a leve pena
caída
da saudosa
ave, querida...
Assim o beijo
fugiu,
porque no ar
se sumiu,
de regresso ao
seu país,
onde era rei e
feliz...
A boca outra
vez sorrindo,
os lábios,
doces, abrindo,
àquele nino
que entrou
e p'ra sempre
se quedou...
2
Na areia
escaldante
da praia
deserta
passei um
instante
que nunca
esqueci...
Chegaste bem
certa
que o mundo
p'ra nós
o fim tinha
ali:
Senti‑o na
voz,
que não te
deixava
dizer quanto
querias;
senti‑o na
pele,
que tanto
queimava
e nua trazias;
senti‑o
naquele
fantástico
beijo,
que mais
acendeu
o louco desejo
de ter‑te e
sentir
teu corpo no
meu,
pois 'stava a
pedir
um forte
calmante,
para serenar
o sonho
gigante,
em mim a
pulsar
já desde as
origens:
Tivemos
vertigens
deitados na
areia,
até nos
cobrir,
com grande
lençol,
subtil
lua‑cheia!
E foi a sorrir
que um lindo
arrebol
nos veio
encontrar
na praia já
fria:
Parece que o
mar,
em doce
harmonia,
também
comungava
da nossa
alegria,
num manto de
espuma
que tudo afagava...
Partimos,
então,
sem ponta de
bruma,
levando uma
ruma
de tanta
ilusão...
3
Vali‑te na
hora certa,
quando na rua
deserta
vagueavas
tonta e triste:
hesitaste, mas
vieste,
e a confissão
que fizeste,
de que segredo
pediste,
veio levantar
o véu
da conduta,
sem labéu,
de que tantos
duvidaram.
Tu já
partiste. Eu fiquei,
mas nunca
revelarei
as causas que
te levaram...
4
Quiseste um
dia partir,
rasgando a
espuma do mar,
e eu fiquei,
triste, a pedir
o teu breve
regressar...
Muitas vezes
fui ao cais,
angustiado,
saudoso,
com pranto,
dor e com ais,
lembrar nosso
amor ditoso...
Mas tu nunca
mais voltaste
àquele lugar
querido,
onde, chorosa,
juraste
ser um transe
dolorido...
Por que não
tornaste, então,
a recordar‑te
de mim
e o meu pobre
coração
transformaste
em manequim?
E agora 'inda
vou ao cais,
de dia, à
noite, p'las tardes:
Mas sem
pranto, dor, ou ais...
Apenas matar
saudades!
5
Tantas vezes
procuro o que não vem
e tu chegaste
como eu não 'sperava:
Receio,
todavia, despertar
e nos braços,
vazios, não ter quem,
subtil e sem
reservas, se entregava
ao desejo
comum de consumar
Maravilhosa
noite nupcial!
anjo adorado,
Vénus tão querida,
isto será um
sonho, ou o Ideal
aos dois
benquisto na exacta medida?
6
Aquele doce
beijo que me deste
no momento da
nossa despedida
abriu pétalas
mil no coração,
Magoado pelos
cardos da paixão...
agora, embora
tarde, tu vieste
rasgar o velho
penso da ferida,
insuflando‑lhe
gotas de esperança
‑ a prova mais
feliz de confiança!
7
Amor, dá‑me um
terno beijo,
que venha
suavizar
o meu ardente
desejo
de nos braços
te apertar!
Um beijo dá‑se
a qualquer,
conforme o
significar,
seja homem, ou
mulher,
e o sentido no
beijar!
8
Martiriza‑me
um amor,
ainda que eu o
não queira!
Resta‑me só a
maneira:
ir ter com o
causador,
a razão desta
cegueira...
Horas de longo
sofrer
e noites,
sem-fim, que passo,
lutando contra
a Mulher,
esbelta,
jovem, amada,
na procura de
um abraço,
ambição sempre
frustrada...
9
Faz‑me bem
fantasiar
com quem e
COMO quiser
e também me
deleitar
com um corpo
de mulher,
que me
alimente a ilusão
de eu estar
persuadido
que tenho em
seu coração
o lugar de
preferido...
Mas são tempos
que se foram
sem terem
repetição:
Coisas que
ainda se adoram
e desejamos,
em vão...
Se dissesse
não gostar
de em tantos,
tantos momentos,
as rédeas,
firmes, largar
de oprimidos
pensamentos,
certamente que
mentia.
Mas bem pouco
ambiciono:
ter instantes
de alegria;
da tristeza o
abandono;
um gesto; um
sorriso; um beijo;
a promessa de
que um dia
alguém sacie o
desejo
desta bela
fantasia.
10
Que desgraças
sucederam
a esses
momentos loucos,
que na vida
foram poucos
e tanto a ti
me prenderam?
Agora são
fantasias,
que eu
recordo, com ternura:
A tua imagem
tão pura
e saudosas
alegrias...
De principio,
sofri eu
e depois,
fiz‑te sofrer:
O que então
aconteceu
não foi por eu
o querer
e do rumo que
escolhi
'inda não me
arrependi...
11
Nunca mais
posso esquecer
o Muito amor
que me deste,
bem como o
quanto sofreste,
porque me
irias perder...
São penas que
me ficaram
a consumir
toda a vida,
pois foste uma
Mulher querida
das que em meu
Peito habitaram...
Todo o mal que
te desejo
é que sejas
tão feliz
como O tanto
que eu te quis
no nosso
Primeiro beijo!
12
Agora deixo‑te
e sigo
que o meu
caminho é dif'rente
daquele que
antigamente
combinei
trilhar contigo...
Adeus, pois,
que vou partir
p'rò rumo que
me foi dado:
mas não me
sinto culpado
de as
promessas destruir!
Duas vidas
encontradas,
tantos
castelos erguidos,
de alegrias e
gemidos
e das
promessas juradas...
Mas nada se
compadece
do rumo que à
vida damos:
Desiludidos,
cansamos
e a Esperança
perece!
13
Mandei-te
beijos secretos,
abraços de
enfeitiçar,
rios de
sonhos, dilectos,
imolados
num altar
armado p'ra
te adorar!
As
saudades, tantos cardos,
dia e
noite, sem cessar,
recordam os
tempos belos,
imorredouros,
passados
a levantar os
castelos,
nobres, tão
frágeis, no ar,
a seguir
desmoronados...
devaneios de
paixão
ensaiou meu
coração...
Juro, pois, que
não te minto
e deves
acreditar
ser amor isto
que sinto!
um sonho que
vai ficar
sem se poder
consumar!...
Rogo a Deus
que, por favor,
insufla nesta
paixão
bálsamos e
cesse a dor,
e dê ao teu
coração,
imaculado,
carinhos,
rubras flores,
sem espinhos,
amor, paz... o
meu perdão!